A inteligência artificial (IA) deixou de ser uma promessa futura e se tornou protagonista no esporte de alto rendimento. A afirmação é da pesquisadora brasileira Bianca Gama, professora da Uerj e especialista no uso da IA no esporte, que participou de um painel sobre o tema nos Jogos Olímpicos de Inverno em Milão-Cortina. Segundo Gama, a tecnologia define em muitos casos quem alcança o pódio e os motivos por trás dessa conquista.
A IA passou a ser vista como um diferencial competitivo, permitindo uma compreensão aprofundada sobre treinamento, recuperação de atletas, prevenção de lesões e aprimoramento de desempenho. Grandes empresas de tecnologia, como Google, Microsoft e Amazon, já investem pesadamente em soluções aplicadas ao esporte, desenvolvendo parcerias com clubes e ligas para análise de dados e experiência dos fãs.
A forma de identificar talentos também foi transformada. A IA permite a análise de dados em milissegundos, substituindo métodos tradicionais. Drones, vídeos e plataformas globais de análise agora identificam padrões invisíveis ao olho humano e preveem o potencial de evolução de um atleta, além de seu risco de lesões.
Clubes como o City Football Group utilizam ciência de dados de forma avançada para coletar e analisar informações de atletas globalmente. Em um caso notável, o jogador Kevin De Bruyne utilizou analistas de dados para renegociar seu contrato, demonstrando sua influência em campo por meio de métricas avançadas.
A IA também revoluciona a descoberta de jovens talentos com o chamado "scouting preditivo". Algoritmos analisam milhares de horas de jogos de categorias de base, identificando atletas com alto potencial antes que se tornem estrelas de alto custo, numa estratégia similar ao "Moneyball".
A prevenção de lesões é outro campo beneficiado. A IA cruza dados de treinamento, exames médicos e histórico de lesões para identificar predisposições e agir preventivamente, levando clubes a desistirem de contratações de alto risco.
Informações sobre atletas são consideradas segredo de Estado, com clubes protegendo seus algoritmos como vantagem competitiva. A IA também democratizou o acesso ao treinamento, com aplicativos que corrigem a postura de atletas amadores por vídeo, funcionando como um "coach digital".
Para as novas gerações, a IA muda a forma de consumir esporte, criando conteúdo curto e interativo a partir de micromomentos de jogos. Embora a IA não substitua os olheiros, ela amplia suas capacidades analíticas, transformando uma "foto" em um "filme" com contexto histórico e previsões.
A inclusão também é beneficiada, com tecnologias que traduzem informações esportivas para linguagem de sinais e sensores que auxiliam atletas com deficiência visual. O "gêmeo digital", um modelo virtual do atleta alimentado por dados, permite simular reações corporais em diferentes condições, já utilizado por equipes de ciclismo do Tour de France.
Apesar dos avanços, desafios éticos persistem, como a definição do limite entre vantagem tecnológica e doping, a propriedade dos dados e o risco de viés em algoritmos, tornando a governança e a ética na IA fundamentais no esporte.