O governo brasileiro demonstra cautela em relação a uma possível classificação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas pelos Estados Unidos. A principal preocupação é que tais ações políticas possam comprometer as negociações para um encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Donald Trump, previsto para abril.
Liderada pelo Itamaraty, a gestão petista tem fornecido informações sobre as medidas de combate ao crime organizado no Brasil. Incluem-se a aprovação da PEC da Segurança e do Projeto de Lei Antifacção, além de operações da Polícia Federal, como a Carbono Oculto, que visam desarticular o braço financeiro das organizações.
Esses esforços buscam demonstrar aos EUA que o Brasil já possui dispositivos eficazes contra o crime, incluindo o endurecimento de leis. O governo argumentará que qualquer intervenção externa seria redundante às ações internas.
A estratégia é conduzida com sensibilidade diplomática para manter as pontes de diálogo para o encontro entre os presidentes. Auxiliares de Lula veem a visita como um trunfo eleitoral, especialmente com o combate ao crime organizado como pauta principal, consolidando a aproximação iniciada em setembro do ano passado.
A proximidade entre os governos impede uma reação mais dura do Brasil diante do risco de os EUA classificarem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Em julho, após Trump anunciar tarifas sobre produtos brasileiros, Lula e o PT defenderam a soberania nacional, revertendo um cenário de avaliação negativa do presidente. Pesquisa recente do instituto Quaest mostra 51% de aprovação e 44% de desaprovação.
O discurso contra as tarifas foi visto como um catalisador para mobilizar a população, com Lula afirmando na época que o Brasil é soberano e não aceitará ser tutelado.
Oficiais do Departamento de Estado dos EUA consideram as facções brasileiras uma ameaça relevante à segurança regional, com PCC e CV preocupando autoridades do hemisfério.
Aliados de Lula alertam que a classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA teria graves efeitos sobre a soberania nacional, podendo justificar intervenções americanas em assuntos internos brasileiros, citando exemplos como falas de Trump sobre a Colômbia e intervenções na Venezuela.
Lideranças da base aliada no Congresso veem a possível classificação como um ato da oposição bolsonarista contra os interesses do Brasil, expondo o país a sanções e intervenções. Para contrapor a crítica de que se opor à classificação seria defender as facções, reforçam as operações da PF contra o crime organizado.
Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Senado, afirma que a oposição bolsonarista sonha com intervenção estrangeira e que o PCC e o CV nunca foram tão combatidos como no governo Lula.
Pedro Uczai (PT-SC), líder do PT na Câmara, declara que PCC e CV são organizações criminosas sem ideologia e que a categorização terrorista pelos EUA tem outros interesses não explicitados. Ele sugere que os EUA poderiam colaborar com o estrangulamento financeiro de atividades criminosas, lembrando que o Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já enviou informações sobre criminosos brasileiros aos EUA.