Alterações hormonais capazes de induzir comportamentos maternos, produção de leite e até mudanças emocionais podem ocorrer em animais mesmo sem existir uma gestação real. Esse fenômeno, conhecido na medicina veterinária como pseudociese ou pseudogestação, chama a atenção tanto pela curiosidade quanto pelos riscos à saúde quando não acompanhado adequadamente.
Segundo a professora do curso de Medicina Veterinária da Unifacid Wyden, Emanuelle Frota, a condição é mais frequentemente observada em cadelas e acontece logo após o período de cio.
“Isso ocorre quando a cadela vai entrar no cio, pois terá a liberação dos óvulos para a fecundação e esses óvulos não serão fecundados”, explica Emanuelle. Ela também comenta como isso ocorre.
“Essa fêmea vai ter um alto nível hormonal, de progesterona e logo após essa fase de cio, esses níveis caem muito rápido e causam um aumento da prolactina. É o hormônio que vai estimular as mamas a terem um aumento, a ter produção de leite e tudo isso vai se mostrar como um comportamento materno para o animal”, observa.
Entre os sinais mais comuns estão o aumento das glândulas mamárias, produção de leite, sensibilidade abdominal e comportamento materno, como a formação de ninhos e a adoção de objetos, que passam a ser tratados como filhotes. Apesar de em muitos casos ser uma fase autolimitante, com duração de um ou dois meses após o cio, Emanuelle alerta que a pseudociese não deve ser negligenciada.
“O estímulo hormonal excessivo pode desencadear inflamações mamárias, como mastite, além de alterações uterinas que podem evoluir para quadros graves, como a piometra, que é uma urgência cirúrgica”, destaca. Além disso, a lambedura excessiva das mamas pode causar lesões na pele e agravar processos inflamatórios.
O quadro pode acometer animais de médio e grande porte
Já nos animais de produção, a gravidez psicológica pode acontecer, mas é menos frequentemente relatada, conforme explica a professora Roselma Moura do Unifacid Wyden. “Esses animais passam por acompanhamento reprodutivo dentro dos criatórios, tanto os bovinos, quanto suínos e equinos, com exames de imagem, o que permite identificar rapidamente se há ou não uma gestação”, afirma.
Ainda assim, comportamentos associados à falsa gestação podem ser observados. Em equinos, por exemplo, pode ocorrer produção láctea persistente fora do período gestacional. Já em suínos, há relatos de fêmeas que constroem ninhos como se estivessem se preparando para o parto. “Os suínos fazem ninhos para simular um parto, um ambiente para ele parir com segurança. Tudo isso precisa ser visto e monitorado de perto por quem está acompanhando esses animais”, completa Roselma.
Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico da pseudociese é clínico e envolve avaliação veterinária criteriosa para descartar gestação real e outras enfermidades. O tratamento pode incluir manejo comportamental, uso de medicamentos para inibir a produção de prolactina e, em alguns casos, o uso de colar elizabetano para evitar lesões por lambedura.
“É interessante ficar atento aos sinais comportamentais, como fazer ninho, adoção de objetos, ursinhos (que nos pets é mais comum), mudança de temperamento que às vezes o animal pode apresentar, diminuição da atividade física e lambeduras excessivas no abdômen”, reforça a professora Roselma.
Nos casos de recorrência, a castração é apontada como medida preventiva eficaz, reduzindo a exposição contínua a estímulos hormonais e prevenindo doenças futuras. A gravidez psicológica em animais é um alerta da complexidade fisiológica e emocional dos animais e reforça a importância do cuidado veterinário contínuo.
Com informações da Ascom















