A “Doutrina Donroe”, enunciada por Donald Trump, agora espelha os princípios do Russkij Mir de Vladimir Putin, refletindo o papel ativo que tanto os Estados Unidos quanto a Rússia assumem em controlar, conquistar e explorar países em seus respectivos espaços de influência. Enquanto os EUA ampliam sua presença na América Latina, especialmente na Venezuela, a Rússia tenta reafirmar seu poder no espaço ex-soviético, como demonstrado na Ucrânia.
A operação americana na Venezuela
A recente operação americana em Caracas gerou reações mistas na Rússia. O presidente Vladimir Putin demonstrou clareza sobre a sua insatisfação ao observar o que considera a “sorte” de Trump em agir com eficácia num curto espaço de tempo — capturando o líder venezuelano Nicolás Maduro, contrastando com sua própria luta para expandir a influência russa na região. O ex-presidente Dmitry Medvedev, em um discurso ácido, provocou os americanos — referindo-se a eles como “camaradas do Pindostan”, e argumentando que os EUA não têm moral para criticar outros países, dado o que ele vê como práticas cínicas e egoístas da administração Trump.
Essa defesa da “doutrina Donroe”, que visa proteger os interesses americanos de forma agressiva, reflete a percepção russa de que o mundo está voltando a um modelo de imperialismo, mas agora sob pretextos modernos. Para Putin, essa postura americana ecoa os tempos da Guerra Fria, onde o controle sobre nações em cada hemisfério se tornava uma questão de honra.
O impacto sobre o globalismo
Estes eventos marcam um possível fim ao globalismo pós-soviético que perdurou por três décadas, desde as reformas de Boris Yeltsin até a atual operação militar na Ucrânia. A Wolrd Economic Forum de 2026 talvez marque o início de uma nova era de divisão em que as grandes potências mundiais, como Trump, Putin e Xi Jinping, buscam reafirmar suas esferas de influência de maneira mais explícita e direta.
As táticas dos EUA também refletem um retorno ao poder militar e se utilizam da retórica que antes era comum nas disputas ocidentais com os países socialistas. O fato de que o uso da palavra “guerra” foi banido do discurso público na Rússia demonstra a precisão na forma como as narrativas são construídas e controladas por ambos os lados.
A reação russa e perspectivas futuras
À medida que as grandes potências se movem em direções opostas, o descontentamento da Rússia é palpável. Foi a Rússia quem se viu em uma posição de criticar as ações dos EUA, afirmando que a operação na Venezuela é um prenúncio do retorno ao domínio americano. Representantes do governo russo começaram a falar abertamente sobre as “consequências catastróficas” que podem surgir das ações unilaterais americanas, refletindo a necessidade de Moscou em reafirmar sua influência na geopolitica atual.
Neste cenário, o controle do território e da produção de petróleo se destaca como peça central. O combustível da economia global é o que Rússia e Venezuela tentam manipulatear através de acordos que envolvem dramáticas reviravoltas geopolíticas. As ameaças de ações militarizadas, como a de atacar navios americanos, foram mencionadas como uma forma de demonstrar que a Rússia não se intimidará diante da pressão ocidental.
Um olhar sobre o futuro
Enquanto a situação evolui, fica evidente que o cenário global está em transformação. A combinação da retórica agressiva de Trump, a reação implacável da Rússia e a crescente influência da China indicam que a nova ordem mundial está sendo definida. A situação atual não apenas complica as relações internacionais, mas também representa um desafio para a estabilidade econômica de regiões-chave, como a América Latina e o Oriente Médio, onde as potências globais tentam prevalecer.
Num futuro não muito distante, a estratégia de Trump pode trazer mudanças significativas nas dinâmicas de mercado, particularmente no que se refere ao petróleo — onde a busca por controle e exclusão de economicamente interesadas será um dos principais focos. Também é possível que estas manobras acentuem a separação entre interesses ocidentais e interesses orientais, moldando o que se vislumbra como um mundo multipolar.
O caminho à frente, portanto, terá que ser trilhado cuidadosamente, com todas as partes em jogo buscando equilibrar seus interesses e minimizar os perigos de uma nova guerra fria.
*Pe. Stefano Caprio é docente de Ciências Eclesiásticas no Pontifício Instituto Oriental, especializado em Estudos Russos. Autor de “Lo Czar di vetro. La Russia di Putin”.

