Nos últimos anos, um número surpreendente de vistos de trabalho concedidos nos Estados Unidos para artistas com “habilidades extraordinárias” tem sido atribuído a criadores de conteúdo do OnlyFans e outros influenciadores das redes sociais. Este fenômeno, que pode chocar alguns, revela uma mudança significativa na interpretação do que constitui “habilidade extraordinária” no contexto da imigração.
A nova face do visto O-1B
Tradicionalmente, o visto O-1B foi concebido para atrair talentos artísticos de renome, como o famoso exemplo de John Lennon, que utilizou o visto para permanecer nos Estados Unidos. No entanto, agora ele é frequentemente destinado a estrelas da plataforma OnlyFans e outros influenciadores digitais. Segundo advogados de imigração, mais da metade dos clientes que buscam esse visto são performers de conteúdo adulto ou influenciadores digitais.
Joe Bovino, advogado de imigração em Miami, destacou que, atualmente, até 65% de seu público-alvo em busca do visto O-1B consiste em criadores de conteúdo online. Esta situação foi impulsionada pelo crescimento massivo das redes sociais e pela capacidade dos influenciadores de gerar receitas significativas por meio de seus conteúdos.
O impacto dos influenciadores de mídia social
Entre os nomes proeminentes da plataforma OnlyFans que conseguiram se estabelecer nos EUA estão a modelo mexicana Yanet Garcia, que recentemente se tornou cidadã permanente dos Estados Unidos. Outros exemplos notáveis incluem Aishah Sofey, uma canadense que vive em um coletivo de influenciadores na Flórida conhecido como “Bop House”.
Esses influenciadores acumulam milhões de seguidores em plataformas como Instagram e TikTok, além de OnlyFans. Como resultado, muitos deles conseguem demonstrar os critérios de “habilidade extraordinária” exigidos para o visto, com altos números de seguidores e rendimentos substanciais. “Se você pode ganhar dinheiro com isso, isso se torna uma base para uma potencial aplicação de visto,” afirma Bovino.
Critério de habilidade extraordinária
O visto O-1B é um dos mais difíceis de ser obtido e foi formalizado na década de 1990 para atrair pessoas com “habilidade extraordinária nas artes ou conquistas extraordinárias na indústria do cinema e da televisão”. Para se qualificar, os candidatos devem atender a critérios específicos, como ter papéis em produções de destaque, renome nacional e um histórico de sucesso comercial e/ou crítico.
Embora originalmente direcionado a artistas tradicionais, como atores e músicos, os influenciadores digitais conseguiram fazer valer suas conquistas financeiras e reconhecimento nas mídias sociais como prova de seu sucesso na indústria. Essa nova realidade é vista com preocupação por muitos na área jurídica e artística.
Preocupações sobre a diluição da categoria de artistas
Com o aumento de influenciadores aplicando para os vistos O-1B, alguns advogados expressaram sua preocupação de que o sistema está se distorcendo. “Estamos tendo casos em que pessoas que nunca deveriam ter sido aprovadas estão recebendo vistos O-1,” comentou a advogada de imigração Protima Daryanani. Para ela, a validação de “habilidades extraordinárias” através de métricas baseadas em algoritmos pode colocar em risco a integridade das artes.
Shervin Abachi, outro advogado de imigração, alertou que, uma vez que isso se normalize, a avaliação do mérito artístico pode se transformar em uma mera competição de números. “Uma vez que isso se torna normal, o sistema se move para tratar o mérito artístico como uma pontuação,” disse Abachi.
Desde 2017, o Departamento de Estado dos EUA emitiu 125.351 vistos O-1, embora ainda não se saibam exatamente quantos deles foram direcionados a influenciadores de mídias sociais. O objetivo inicial desse visto foi atrair talentos genuinamente excepcionais que poderiam contribuir significativamente para a cultura americana.
Apesar da diminuição nos pedidos de influenciadores do OnlyFans desde 2022, as preocupações em relação ao impacto que essa nova onda de imigrantes pode ter sobre a aplicação do visto O-1B permanecem. Profissionais de imigração continuam a monitorar a situação, na esperança de que mudanças possam ser feitas para preservar o prestígio e a intenção original do programa.
Assim, a dinâmica atual levanta questionamentos importantes sobre o que significa ser um artista nos dias de hoje, em um mundo cada vez mais digitalizado.


