Os bispos católicos da Etiópia emitiram uma mensagem profundamente pastoral que aborda o medo, o sofrimento e a fragmentação que assolam o país, reforçando o apelo para que o povo “não tenha medo”.
Uma mensagem de esperança durante o Advento
Datada de 10 de dezembro de 2025 e divulgada em 4 de janeiro, a mensagem foi lançada ao final da 59ª Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Católica da Etiópia (CBCE), realizada em Emdibir entre 8 e 10 de dezembro. O encontro marcou o encerramento do ano jubilar e o início oficial da implementação do documento final do Sínodo sobre Sinodalidade no país.

Uma fonte missionária próxima à Igreja na Etiópia revelou à ACI África que a decisão dos bispos de divulgar amplamente a mensagem — e de solicitar sua leitura nas missas paroquiais — representa uma mudança significativa.
“O fato de os bispos católicos estarem circulando essa mensagem e pedirem sua leitura nas missas é algo novo”, afirmou a fonte, acrescentando que, no passado, “os bispos na Etiópia eram muito temerosos. Talvez esse ‘não tenham medo’ seja um novo começo para uma Igreja que até então era marginalizada”.
Mensagem enraizada na esperança do Advento
A mensagem é dirigida ao clero, às mulheres e homens religiosos e ao laicato — incluindo os católicos na diáspora e “todas as pessoas de boa vontade” — e foi inspirada nas palavras do anjo aos pastores: “Não temais; eis que vos anuncio uma grande alegria” (Lc 2,10).
Escrita durante o Advento, em preparação para o Natal, que na Etiópia é comemorado em 7 de janeiro, a mensagem pastoral dos bispos situa sua exortação dentro da realidade concreta do povo etíope.
“Em uma nação marcada por muitas dificuldades — pobreza, conflitos, mudanças climáticas, confusão cultural e divisão — essas palavras nos lembram que, mesmo na escuridão, a luz divina de Cristo brilha, guiando-nos para uma esperança renovada e unidade,” destacaram os bispos.
Segundo eles, o apelo à coragem não é uma negação do sofrimento, mas uma afirmação de fé. “Não negamos o profundo medo e as dificuldades que assolam nossa nação, mas afirmamos com fé que Deus está conosco”, escreveram.
Reconhecendo as feridas do país
Os bispos descreveram as “feridas pesadas” que atingem a Etiópia, começando pelo alto custo de vida.
“Para muitas famílias, a vida diária tornou-se insuportável”, afirmaram, acrescentando que “a escalada dos preços torna os bens básicos um luxo. Os pais assistem impotentes enquanto os filhos vão dormir com fome”.
Essas realidades são vistas à luz da doutrina social da Igreja Católica, que enfatiza a opção preferencial pelos pobres e vulneráveis e afirma que a estrutura econômica deve servir à dignidade humana.
Outro ponto destacado foi o impacto devastador das mudanças climáticas, especialmente as secas e a degradação ambiental.
“Imaginemos aqueles que morrem de fome em um país de abundância”, escreveram, convocando para uma “ conversão ecológica” e citando a encíclica Laudato Si’, sobre a necessidade de uma mudança de coração que leve ao arrependimento profundo e ao desejo de transformação.
Fragmentação cultural e perda do bem comum
Os bispos alertaram que o tecido social da Etiópia está se desfazendo sob o peso de conflitos tribais, ódio étnico e ideologias de divisão, agravados pelo uso indiscriminado da cultura digital moderna.
“A nova cultura moldada pela digitalização está eliminando nossos valores tradicionais”, observaram, advertindo que uma mentalidade de ‘nós contra eles’, amplificada pelas redes sociais, está corroendo o sentido do bem comum.
“Corremos o risco de perder a noção do bem comum — de que o bem-estar de cada um está ligado ao bem-estar de todos”, alertaram.
‘Nosso país está encharcado de dor’
Os membros da CBCE também abordaram as guerras e a insegurança. “Nossa terra está ensopada de dor”, afirmaram, apontando para a guerra civil, violência local contínua e conflitos baseados em religião, etnia e política.
Reiteraram que paz não é apenas ausência de guerra, mas a presença da justiça e o florescimento da dignidade humana. “A Igreja Católica ensina que a paz é mais do que a ausência de conflito — ela exige justiça e o respeito à dignidade de todos”, destacaram.
Na mensagem, os bispos questionam: “Quando teremos o suficiente? Quando deixaremos de ciclo de violência para trabalhar pela cura e reconstrução?”
Apontaram ainda as consequências sociais do conflito — o colapso econômico, a erosão cultural e o deslocamento. Ressaltaram a situação dos deslocados internos e dos_etíopes obrigados a viver em condições precárias no exterior.
“Como Igreja, não podemos ficar silêncio diante de tanto sofrimento”, disseram. “Fomos chamados a ser instrumentos de paz, a defender os sem voz e a trabalhar incansavelmente pela reconciliação”.
A falha no diálogo
Outro problema destacado pelos bispos foi o colapso na comunicação em todos os níveis sociais. “Nosso maior fracasso pode ser nossa incapacidade de dialogar”, lamentaram, descrevendo uma “babylon de confusão” onde as pessoas não se escutam mais.
Citaram a encíclica Fratelli Tutti de Papa Francisco, reforçando que diálogo autêntico exige respeito às opiniões alheias e reconhecimento de legítimos valores e preocupações.
Sinodalidade como forma de resistência
Em meio a esse cenário de medo, divisão e violência, os bispos apresentaram a sinodalidade não como um processo eclesial abstrato, mas como uma resposta profética. “Andar juntos é um ato de resistência contra forças que dividem e destroem”, afirmaram.

Citando o Vademecum do Sínodo, eles lembraram que a sinodalidade é “o caminho pelo qual a Igreja é chamada a caminhar… permitindo que todos participem de uma escuta e discernimento comum”.
Reforçaram que isso não é apenas uma atividade eclesial, mas um testemunho profético e uma resposta concreta às crises do país.
‘Não tenham medo’
Um dos trechos mais pastorais da mensagem reforça o apelo dos bispos: “Não tenham medo”.
Eles exortaram os fiéis a caminhar como “companheiros na jornada”, a escutar profundamente os marginalizados e a falar a verdade com coragem e prudência.
Aos católicos, pediram que preservem sua identidade na vida litúrgica e proponham uma participação ativa na missão evangelizadora e no desenvolvimento humano integral, promovendo o bem comum sem distinções de credo, etnia ou religião.
Diálogo, ecumenismo, formações em sinodalidade e uma renovada autoridade como serviço são princípios que reforçam essa mesma mensagem: “Não tenham medo”.
Maria, modelo de Igreja sinodal
O texto conclui com uma homenagem mariana, destacando Maria como modelo de uma Igreja sinodal, missionária e misericordiosa.
“Vemos nela a Igreja que escuta, ora, medita, dialoga, acompanha, discerne, decide e atua”, afirmam os bispos, evocando a imagem de Maria como mãe, discípula e colaboradora no caminho de fé.
Uma nova voz pública para uma Igreja marginalizada
Ao pedir que sua mensagem seja lida nas missas em todo o país, os bispos pretendem que a palavra de coragem alcance até as comunidades mais pequenas.
Como afirmou a fonte missão, “talvez esse ‘não tenham medo’ seja um novo começo para uma Igreja que até então era marginalizada”.
Esta reportagem foi originalmente publicada pela ACI África, parceira do CNA na África, e adaptada para o CNA.














