O ano de 2025 ficou marcado pela quantidade de episódios de violência contra as mulheres no país. E, como reflexo da sociedade brasileira, o futebol também foi palco para casos desse tipo. As últimas semanas do ano apresentaram uma sequência de relatos que ganharam repercussão e ilustraram a dura realidade enfrentada por mulheres no jornalismo esportivo: agressões a jornalistas e criadoras de conteúdo enquanto exerciam sua atividade. Três profissionais do setor compartilharam suas experiências com O Globo. Duda Dalponte, da TV Globo; Nani Chemello, da Rádio Inferno; e Aline Gomes, da CazéTV, contaram como é ser mulher nesse meio repleto de desafios e predominações masculinas.
Relatos de assédio e agressão
Duda Dalponte vivenciou uma situação chocante ao cobrir o aeroFla, evento de celebração de torcedores em torno do ônibus do Flamengo. Durante a transmissão, ela foi vítima de três puxões de cabelo, algo que inicialmente pensou ter sido sem intenção, mas que se revelou perturbador. “No segundo puxão, entendi que foi proposital. No terceiro, procurei saber quem foi, mas ninguém se manifestou”, desabafou. A jornalista sentiu a ira e a insegurança diante daquela situação vexatória. Para ela, a repercussão das imagens serviu como um importante alerta para a sociedade sobre a misoginia existente.
Já Nani Chemello enfrentou uma agressão física mais explícita: o lateral Bernadei retirou seu fone de ouvido e a intimida após críticas feitas ao time. “Tive que restringir minhas interações nas redes sociais. Foi uma semana muito pesada”, relatou. Nani falou do contexto emocional em que vivia e de como a agressão a afetou profundamente, haja vista sua ligação com o Internacional, onde frequentava o Beira-Rio desde pequena.
Aline Gomes, da CazéTV, também passou por um episódio violento ao ser empurrada em meio a uma confusão após um jogo do Santos. “Aquele cara passou e machucou meu ouvido. Tive uma crise de ansiedade forte”, relatou. Aline descreveu a reação de outros torcedores que a ajudaram em um momento crítico, ressaltando que isso demonstrou que a violência não representa toda a torcida.
Cultura de assédio no jornalismo esportivo
Os relatos de Duda, Nani e Aline revelam uma realidade de assédio que não surpreende, mas que assusta. Historicamente, o setor de esportes tem sido dominado por homens e, com isso, muitas mulheres enfrentam não apenas a discriminação, mas também a agressão e o assédio. A cultura do futebol muitas vezes deslegitima o trabalho da mulher, criando barreiras para quem deseja fazer o mesmo trabalho que seus colegas homens.
Infelizmente, os episódios de violência e assédio não são novos. Em 2018, a repórter Bruna Dealtry recebeu um beijo à força de um torcedor. Também nesse ano, Renata de Medeiros, da Rádio Gaúcha, foi agredida por um homem no estádio. E em 2024, um técnico afirmou que só devia satisfação a “três mulheres” após uma pergunta feita por uma repórter. Esses casos, entre tantos outros, levantam a questão: o que será necessário para que a conturbada realidade do jornalismo esportivo mude?
A luta por respeito e igualdade no campo esportivo
As três jornalistas são unânimes em afirmar que a luta ainda está longe de acabar. “Temos que estar muito mais preparadas do que qualquer homem. Conquistamos um lugar, mas ainda não é para sempre. Esperamos um dia não precisar ficar lutando, só exercer nossa profissão”, disse Duda. A pressão sob as mulheres no ambiente esportivo é uma batalha cotidiana que exige força e resiliência.
A repercussão dos relatos dessas profissionais é uma luz no fim do túnel, ajudando a trazer à tona o debate sobre o assédio e a violência contra mulheres em diferentes esferas, inclusive no esporte. “Entendi que a repercussão foi importante para falarmos mais sobre o tema e não deixarmos que caia no esquecimento”, concluiu Aline.
Assim, ao iniciar o ano de 2026, o desejo é que mudanças significativas aconteçam, não apenas no jornalismo esportivo, mas em todas as facetas da sociedade, proporcionando um ambiente onde todas as mulheres possam trabalhar e se expressar de forma segura e respeitosa.


