O feminicídio representa uma das formas mais brutais da violência de gênero no Brasil, um problema que exigiu a atenção das autoridades e da sociedade. Desde a promulgação da Lei n. 13.104/2015, que tipificou este crime como hediondo, os números revelam uma realidade desesperadora: em uma década, mais de 11 mil mulheres foram assassinadas por serem mulheres. Este contexto não se limita apenas a uma questão legal, mas envolve também um profundo clamor por mudança cultural e educativa, destacando o papel da Pastoral Familiar em mapear novos caminhos.
A realidade do feminicídio no Brasil
A caracterização do feminicídio se dá por homicídios que ocorrem motivados pela condição de ser mulher, frequentemente dentro do ambiente doméstico e em relacionamentos afetivos. Os dados são alarmantes: cerca de 1.259 casos foram registrados em 2024, traduzindo-se em quase quatro mulheres assassinadas diariamente. O quadro é ainda mais preocupante quando consideramos que as altas taxas de vitimização atingem desproporcionalmente mulheres negras, enfatizando a intersecção entre raça, classe e violência.
Esse fenômeno é muitas vezes alimentado por uma cultura patriarcal enraizada que normaliza a dominação masculina e a desigualdade de gênero. A reflexão proposta pela Igreja Católica instiga a sociedade a questionar não apenas os perpetradores, mas a estrutura que sustenta essa violência. O Papa Francisco, por exemplo, denunciou que a violência contra a mulher é uma “covardia” que envergonha a humanidade.
Uma leitura teológica do feminicídio
Do ponto de vista teológico, a violência contra a mulher é um pecado que gera muito mais que dor física; representa uma profunda ferida na dignidade humana. O Concílio Vaticano II advertiu que todo atentado contra a vida humana envenena a civilização. A compaixão deve ser dirigida não apenas às vítimas, mas à conscientização da raiz da cultura que promove tais atos.
A teologia moral contemporânea nos apresenta o feminicídio como um pecado estrutural, gerado por um conjunto de omissões sociais e educativas. É, portanto, imperativo que as religiões, especialmente a Igreja, promovam fórmulas que resgatem a dignidade da mulher e a imagem de Deus, que é refletida em cada ser humano.
Raízes culturais e educativas do problema
Decifrar o que leva ao feminicídio implica entender as dinâmicas familiares, sociais e educativas que produzem homens incapazes de lidar com suas emoções e que veem a mulher como objeto. Estudiosos indicam que muitos agressores foram, ao longo de suas infâncias, expostos a contextos violentos, onde a resolução de conflitos era feita de forma agressiva. Essa socialização fornece uma base para que homens cresçam acreditando que dominação é sinônimo de masculinidade.
A pornografia e a hypersexualização da mulher na mídia também contribuem para essa naturalização da violência. Uma educação que não aborde saúde emocional, consentimento e respeito é um terreno fértil para o surgimento de relações abusivas. Além disso, a cultura patriarcal e algumas educações familiares replicam a ideia de que a mulher é responsável pela agressividade do homem, reforçando o ciclo de violência.
A importância da educação para prevenção
Se o feminicídio é o extremo de um problema que começa com pequena violência, a prevenção se torna uma missão primária. O processo educativo deve começar no seio familiar, sendo apoiado pela escola e pela Igreja. O Papa Francisco enfatiza que esta ação deve focar no valor da dignidade humana e nas relações justas, fundamentadas no respeito mútuo.
Uma educação afetivo-sexual integral é essencial. Falar aberta e honestamente sobre sexualidade e relacionamentos é crucial para equipar crianças e jovens com as ferramentas necessárias para desenvolver relacionamentos saudáveis. A construção de um amor que respeita e não controla deve ser uma prioridade nas discussões familiares.
A Pastoral Familiar como agente de transformação
A Pastoral Familiar tem um papel fundamental na formação de uma cultura de paz e respeito, abordando os temas do feminicídio e da violência contra a mulher em seus encontros e programas de formação. A inclusão de temáticas sobre igualdade de gênero, direitos da mulher e empatia em suas atividades é um passo vital. Propor ações e reflexões que desmistifiquem a masculinidade tóxica e promovam a saúde emocional entre os homens é igualmente importante.
Conclusão: conversão e responsabilidade
O feminicídio desafia a sociedade a uma conversão necessária e urgente. Cada morte não é apenas uma estatística, mas uma vida que se extinguiu e um eco de dor que ressoa na sociedade. Portanto, a transformação precisa ocorrer não só em leis, mas nas mentalidades. A Pastoral Familiar, em parceria com a comunidade, é chamada a cultivar culturas de não-violência em lares, escolas e igrejas.
Somente através de educação e conversão é que poderemos começar a contar não as tragédias do feminicídio, mas histórias de amor, respeito e reconciliação, refletindo a dignidade que cada pessoa carrega como imagem de Deus.

