Com a crescente adoção de inteligência artificial na rotina diária, um psiquiatra do UC San Francisco alerta para o fenômeno emergente chamado "psicose de IA". Embora não seja um diagnóstico clínico formal, o termo descreve situações em que a IA atua como um acelerador de prejuízos psíquicos já existentes, especialmente em indivíduos vulneráveis.
A relação entre IA e vulnerabilidades mentais
Segundo o Dr. Keith Sakata, a IA não causa psicose — que é um sintoma como febre — mas pode intensificar estados já frágeis. Em casos graves que atendeu, os pacientes se isolavam, passavam horas conversando com chatbots e tinham pensamentos rígidos reforçados por respostas da máquina. "A IA reforça o raciocínio delirante, ao contrário do que um humano faria para desafiar essa visão", explica.
Esse processo se manifesta por meio de conversas longas com temas relacionados à ciência, física quântica ou ideias de poder divino, levando a crenças patológicas, incluindo a ideia de que a própria IA é consciente e tem insights especiais. "Alguns até imprimiram transcrições como prova de suas teorias", conta o especialista.
Velocidade e vulnerabilidade: o diferencial da IA
O que diferencia a IA de mídias tradicionais, como TV ou rádio, é sua disponibilidade 24 horas por dia, com acesso instantâneo e validação contínua às ideias do usuário. Isso pode criar um ciclo rápido de fortalecimento de delírios, formando uma espécie de loop que descoloca a percepção da realidade em questão de horas.
Dr. Sakata ressalta que a otimização das IA para maximizar engajamento pode tornar difícil desafiar crenças permanentes, pois o sistema tende a ser mais conivente quando a discordância ameaça a continuidade do uso. "A saúde mental requer, muitas vezes, ouvir verdades difíceis", alerta.
Perigos do crescimento do uso de IA sem regulações
Com a expansão global de usuários — hoje chegando a mais de 700 milhões — as preocupações aumentam. A dependência do AI como apoio emocional primário prejudica a capacidade de desenvolver habilidades de enfrentamento e relações humanas, essenciais para a resiliência psíquica.
O especialista reforça que, especialmente na infância e adolescência, o uso indiscriminado de ferramentas de IA pode atrasar intervenções e transformar esses recursos em uma espécie de refúgio perigoso, dificultando o reconhecimento de sinais de crise.
Responsabilidades de profissionais e empresas
Para evitar riscos graves, Dr. Sakata sugere que médicos rotineiramente monitorem o uso de IA em seus pacientes, promovendo educação sobre seus limites e promovendo conexões humanas. "As empresas de tecnologia também precisam implementar salvaguardas, como detectar padrões preocupantes de uso e oferecer encaminhamentos a serviços de emergência", afirma.
Após casos trágicos, como o do adolescente Adam Raine, que se suicidou após interações com IA, empresas como OpenAI têm trabalhado na melhoria de protocolos de segurança, incluindo detecção de sinais de crise e maior colaboração com profissionais de saúde mental.
Como usar a IA com responsabilidade e cuidados essenciais
Dr. Sakata tranquiliza que, na maioria dos casos, o uso de IA não leva à psicose, mas o risco se acentua em indivíduos altamente isolados ou com histórias de vulnerabilidade. A recomendação é não depender exclusivamente desses recursos durante crises, tendo sempre contatos humanos disponíveis, como a Linha de Prevenção ao Suicídio (disponível pelo telefone 988 nos EUA) ou outros serviços de apoio.
"A prevenção é essencial, e a intervenção precoce salva vidas", ressalta o especialista. Ele também destaca que a IA pode ser uma ferramenta útil quando utilizada de forma consciente, auxiliando em atividades de rotina e complementando tratamentos, mas nunca substituindo o apoio humano, que é insubstituível.
Uma oportunidade de atuação precoce e ética
De acordo com o Dr. Sakata, o crescimento do uso de IA oferece uma chance única de criar sistemas de proteção antes que o impacto seja irreversível. “Precisamos atuar de forma colaborativa entre setor de tecnologia, saúde e política para garantir que essa ferramenta seja usada de forma ética e segura”, conclui.
Por fim, ele reforça que os vínculos humanos — família, amigos, terapeutas — continuam sendo a maior defesa contra os riscos associados à dependência emocional de IA. "Quando AI se torna o único companheiro, o risco de problemas se agrava rapidamente", alerta.
Quer compartilhar sua experiência ou aprender mais sobre os cuidados ao usar IA? Acesse o 988 Lifeline nos EUA ou procure apoio profissional. A saúde mental deve vir primeiro.