Brasil, 31 de agosto de 2025
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Gisele Camillo realiza sonho de infância como bailarina

A bailarina Gisele Camillo, de 46 anos, enfrenta desafios da baixa visão e conquista seu espaço no mundo da dança.

Sonhar e tornar sonhos realidade são processos que podem ser muito diferentes para cada um. No caso de Gisele Camillo, aos 46 anos, o sonho de infância de ser bailarina se transforma em realidade, mesmo em face das adversidades. Desde o nascimento, a bailarina enfrenta o desafio da baixa visão, que a impediu de experimentar a dança como desejava durante sua infância.

Diagnosticada com baixa visão logo após o nascimento, Gisele tentava dançar em escolas de ballet, mas se sentia obrigada a fingir que enxergava. “Tentei dançar quando criança em algumas escolas, quando eu ainda tinha baixa visão. Mas eu tinha que fingir que enxergava. Se eu falasse, ninguém me aceitava. Tinha que ficar perto do professor. E assim eu seguia a vida”, revela a bailarina.

Aos 38 anos, Gisele enfrentou um novo desafio: a perda da quase totalidade da visão devido a um quadro de glaucoma. Hoje, ela consegue ver apenas vultos e formas. Entretanto, em sua jornada pelo ballet, a visão tornou-se um detalhe secundário. “Quando estou com as meninas no palco, nem lembro da visão. A gente se ajuda muito, a gente conversa. A gente aprendeu mesmo a lidar com a falta da visão no palco. Hoje em dia, não faz mais muita diferença não”, afirma Gisele com determinação.

O papel do cão-guia na dança

Enquanto Gisele se apresenta e dança, seu fiel companheiro, o cão-guia Faísca, um labrador caramelo, aguarda pacientemente ao seu lado. Durante um tempo, Gisele utilizou uma bengala para ajudá-la a medir os espaços, mas agora confia sua liberdade e independência ao novo amigo de quatro patas. “Na segunda semana de treinamento, conversei com o instrutor e contei que achava que não daria conta. Mas ele disse que eu estava indo bem, só estava ficando nervosa demais. É uma adaptação completamente diferente, mas estou muito feliz com ele. É um parceirão. É liberdade. Cão-guia é você sair voando”, celebra Gisele enquanto Faísca acompanha seus ensaios.

O projeto Cia de Ballet de Cegos

Gisele faz parte da Cia de Ballet de Cegos, um projeto inovador fundado em 1995 pela bailarina Fernanda Bianchini. Essa iniciativa foi pioneira ao desenvolver um método de ensino de balé clássico voltado para pessoas com deficiência visual. Atualmente, a companhia conta com cerca de 200 alunos, dos quais cerca de 60% têm algum tipo de deficiência visual.

“Me sinto muito feliz e realizada. Sempre tive o sonho de ser dançarina, bailarina. Quando estou no palco, me sinto livre. Sinto que eu posso voar. A gente sempre ouviu muitos nãos. Mas, quando todo o público aplaude, é aquele ‘Sim, você é capaz. Sim, você pode’. Toda vez que estou no palco, me sinto muito realizada por estar dançando como eu sempre quis”, compartilha Gisele, emocionada.

Damaris Ferreira, gerente da Associação Fernanda Bianchini, relatou que no início, ensinar balé para pessoas com deficiência não era bem aceito. “Elas diziam ‘Imagina. Ensina qualquer coisa’. Hoje, a gente vê meninas dançando com sapatilha de ponta e sem visão”. Ela ressaltou como, no passado, as pessoas com deficiências eram frequentemente marginalizadas. “Antes, a pessoa com deficiência sempre foi uma pessoa deixada de lado, escondida nas famílias. Hoje, a pessoa com deficiência tem muitos direitos, é incentivada a muitas coisas”, destaca. A companhia de ballet teve a honra de apresentar-se ao lado de ícones como o cantor Stevie Wonder e o coreógrafo Mikhail Baryshnikov.

Apresentação da Cia de Ballet de Cegos. Foto: Paula Laboissière/Agência Brasil

Apresentação da Cia de Ballet de Cegos. Foto: Paula Laboissière/Agência Brasil

Recentemente, durante o 69º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, que ocorreu em Curitiba, Gisele e sua companhia apresentaram duas coreografias. “Como o evento tem essa característica de falar sobre a reabilitação ocular e tem um olhar social para a pessoa com deficiência visual, a gente veio para celebrar e dizer que a pessoa com deficiência pode sim estar e fazer o que quiser. Não há limites,” conclui Damaris, trazendo esperança e encorajamento a muitos que enfrentam desafios semelhantes.

*A repórter viajou a convite do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO)

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