Brasil, 31 de agosto de 2025
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“Isso me deixou muito bravo”: reação de uma trabalhadora sexual a “Anora” e suas reflexões

Uma profissional do sexo de 25 anos compartilha sua visão crítica sobre o filme “Anora”, destacando diferenças entre a representação na tela e a realidade

Ao assistir ao filme “Anora”, dirigido por Sean Baker e estrelado por Mikey Madison, uma trabalhadora sexual de Manhattan, Emma*, ficou profundamente irritada. Ela acredita que a produção, embora aclamada pela crítica e vencedora de cinco Oscars, perpetua estereótipos prejudiciais sobre a vida de profissionais do sexo.

Reações à precisão das cenas do filme

Emma destacou que as cenas iniciais do clube são bastante fiéis à sua experiência, o que a levou a pensar que o filme refletia a realidade da profissão. “Quando assisti a cena inicial, fiquei entediada, o que talvez signifique que era verdadeira, porque parecia que eu estava no meu trabalho”, ela revelou. Essa sensação de autenticidade, no entanto, foi gradualmente sendo contestada por elementos que ela considera exagerados ou distorcidos.

Percepções sobre dependência financeira e relações amorosas

Um momento que a confundiu foi a proposta de Ani, personagem de Madison, de fazer sexo com Vanya durante o pagamento. Para Emma, a frase “se já pagaram, não deveria haver mais” não condiz com a ética do universo em que ela trabalha. “Nossa relação com o dinheiro é diferente. Nunca continuaríamos por mais que o cliente insista, porque temos autonomia”, explicou.

Ela também ficou chateada com a cena em que as colegas comemoram a noiva Ani por estar noiva de um homem mais jovem, alegando que, na prática, nada disso acontece. “Nenhuma profissional do sexo que eu conheço aceitaria depender de alguém que não gera sua própria renda”, afirmou.

Representação da personagem Ani e as expectativas do público

Outro ponto de crítica foi a representação de Ani como alguém extremamente “desinibida” sexualmente. Emma acredita que essa imagem reforça um padrão masculino de fantasia, que vê a mulher como alguém constantemente disponível, o que ela considera desumano.

“Quando ela começa a parecer tão sexualizada após o casamento, parece uma fantasia de homem sobre como seria um relacionamento com uma mulher da nossa profissão”, disse. Para Emma, essa construção reforça a ideia de que a mulher do filme age assim por um “desejo genuíno”, o que ela discorda veementemente.

A relação com o amor e o dinheiro

Ela criticou a narrativa do filme, que mostra Ani como alguém que acaba se apegando ao homem, e questionou: “Por que ela estaria tão apegada a ele, se tudo não passou de uma negociação financeira?” Emma explica que na sua experiência, é comum sentir que os homens “se acham especiais”, mas que as profissionais se mantêm independentes e conscientes de seu valor.

Questões de segurança, sexo e as expectativas machistas

Emma também alertou para um fenômeno recorrente no cotidiano de quem trabalha na rua ou em clubes: a ilusão de “homens bonzinhos” que acreditam ter uma chance de conquistar a profissional, muitas vezes com expectativas irrealistas. “Eles tentam se mostrar ‘bons’ para nós, achando que podem nos conquistar, mas a verdade é que somos substituíveis”, enfatizou.

Ela reforçou que o filme reforça uma narrativa equivocada de que há uma espécie de “seja a boa menina” por trás da personagem, o que ela discorda totalmente. “Se a narrativa do filme terminasse com ela jogando o telefone dele fora, talvez fosse mais realista e menos romantizada”, completou.

Reflexões finais e críticas ao glamour machista

Para Emma, o maior problema de “Anora” é como o filme se beneficia de um retrato que perpetua a ideia de que a vampira sexual e a mulher dependente representam uma versão “romântica” da prostituição, uma fantasia que rende dinheiro e prestígio a quem produz esse tipo de conteúdo.

“O que me incomoda é que as pessoas acham que, se a personagem sofre, ela então representa a verdadeira vida de quem trabalha isso”, ela conclui. “Na verdade, a dor não vem da sexualidade, mas do fato de ser vista como um objeto, um símbolo de uma fantasia masculina que vende mais do que a realidade.”

*Nome fictício para preservar identidade. Emma trabalhou como acompanhante e dançarina em clubes de Nova York por dois anos e compartilhou esses pensamentos exclusivamente conosco.

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