A estilista Zuzu Angel foi oficialmente reconhecida como vítima da ditadura militar brasileira (1964–1985) ao ter sua certidão de óbito retificada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania nesta quinta-feira (28/8). A nova documentação agora admite que a morte da estilista foi violenta e causada por ações do Estado brasileiro, dentro do contexto de repressão política que caracterizou aquele período sombrio da história do país.
A luta por justiça de Zuzu Angel
Reconhecida internacionalmente, Zuzu usou sua visibilidade como estilista para lutar por justiça, principalmente após o sequestro e a morte de seu filho, Stuart Angel Jones, um militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). O relato de suas experiências pessoais, somado à sua posição de destaque, a transformou em uma voz ativa no combate às injustiças da época.
A entrega da retificação de sua certidão de óbito ocorreu durante uma cerimônia realizada na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), marcada por forte simbolismo e emoções à flor da pele. Além de Zuzu Angel, outras 20 famílias também receberam atualizações em certidões referentes a parentes mortos ou desaparecidos no regime militar. O governo federal, em um esforço para corrigir as injustiças do passado, prevê a entrega de mais 400 certidões retificadas até o final deste ano.
Reconhecimento em meio a outras vítimas
Quem teve a certidão de óbito modificada:
- Adriano Fonseca Filho
- Antônio Carlos Bicalho Lana
- Antônio Joaquim de Souza Machado
- Arnaldo Cardoso Rocha
- Carlos Alberto Soares de Freitas
- Ciro Flávio Salazar de Oliveira
- Gildo Macedo Lacerda
- Eduardo Antônio da Fonseca
- Pedro Alexandrino Oliveira Filho
- Raimundo Gonçalves de Figueiredo
- Walkíria Afonso Costa
- Zuleika Angel Jones (Zuzu Angel)
- Hélcio Pereira Fortes
- Idalísio Soares Aranha Filho
- Ivan Mota Dias
- João Batista Franco Drumond
- José Carlos Novaes da Mata Machado
- José Júlio de Araújo
- Oswaldo Orlando da Costa
- Paulo Costa Ribeiro Bastos
- Paulo Roberto Pereira Marques
Quem foi Zuzu Angel?
Nascida em Curvelo (MG) em 1923, Zuleika Angel Jones fez a transição para o Rio de Janeiro nos anos 1950, onde construiu uma carreira de sucesso como estilista. Internacionalmente celebrada, Zuzu tornou-se um símbolo de resistência e coragem, especialmente após o trágico sequestro de seu filho, ocorrido em 14 de maio de 1971. Stuart Angel Jones, militante do MR-8, foi sequestrado e nunca mais foi visto, o que levou Zuzu a enfrentar as autoridades e denunciar publicamente as atrocidades da ditadura.
Recebendo notícias de que seu filho poderia ter sido preso, torturado e morto na Base Aérea do Galeão, Zuzu decidiu usar suas passarelas de moda como plataformas para expressar sua indignação e clamar por justiça. Entre os anos de 1975 e 1976, após receber ameaças de morte, Zuzu escreveu uma carta em que listava os responsáveis por sua segurança, deixando claro que, se algo lhe acontecesse, as culpas seriam atribuídas aos mesmos assassinos de seu filho.
A circunstância de sua morte
Infelizmente, em 1976, aos 53 anos, Zuzu morreu em um acidente de carro, oficialmente classificado como resultado de uma fratura craniana e laceração cervical. Contudo, investigações subsequentes, incluindo uma análise forense realizada em 1996 e testemunhos sobre o incidente, sugeriram que sua morte poderia ter sido uma ação deliberada, com outro veículo envolvido na colisão.
O reconhecimento oficial de Zuzu Angel como vítima da ditadura é um passo significativo para a restauração da memória e da justiça no Brasil. Sua história e suas lutas continuam a ressoar como um chamado à consciência social, lembrando a todos sobre os horrores da opressão e a importância da luta pela verdade e pela justiça.