No coração do Jardim Paulista, em Ribeirão Preto (SP), um escritório de investimentos se tornou o centro de uma investigação sobre um esquema bilionário de lavagem de dinheiro, supostamente ligado à facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Com a suspeita de movimentar R$ 47 bilhões, a operação desencadeada na última quinta-feira, 28, conta com a participação da Receita Federal e da Polícia Federal e está focada em fraude envolvendo o setor de combustíveis.
Operação Carbono: uma megaoperação contra o crime organizado
Intitulada como Operação Carbono, a ação policial envolveu a execução de mandados de busca e apreensão em diversas localidades, incluindo prédios comerciais em Ribeirão Preto, onde funcionavam os escritórios financeiros do grupo. As investigações, que iniciaram há vários anos, revelaram um intrincado sistema que utilizava fintechs para “blindar” e lavar dinheiro proveniente de delitos.
De acordo com Robson Barreirinhas, Secretário da Receita Federal, durante a operação foram apreendidos materiais que estão agora sob análise. “Essas investigações ainda estão sob sigilo, e não podemos comentar sobre pessoas ou empresas envolvidas neste caso”, destacou o secretário. O impacto das ações se fez sentir em diferentes localidades, com equipes atuando em Jardinópolis, onde uma distribuidora de combustíveis teve suas atividades suspensas durante a fiscalização.
Unidade de investigação e alcance das fraudes
As investigações, que contam com a colaboração de diversos órgãos, identificaram que entre 2020 e 2024, a organização criminosa teria importado cerca de 10 bilhões de metanol pelo Porto de Paranaguá (PR). Este produto seguiria pela cadeia até postos de combustíveis, resultando em combustíveis adulterados vendidos à população. A Agência Nacional do Petróleo (ANP) permite uma proporção máxima de 0,5% de metanol na gasolina e etanol, enquanto os combustíveis envolvidos nas investigações apresentavam até 90% dessa substância.
Em um desdobramento da operação, foram cumpridos um total de 350 mandados judiciais em oito estados brasileiros, além do bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em imóveis e veículos dos suspeitos. O delegado Glauco Guimarães, da Receita Federal, apontou que a facção utilizava uma rede de bancos paralelos e fundos de investimento, criando barreiras que dificultavam a localização e rastreamento do dinheiro.
Como funcionava o esquema de lavagem de dinheiro
O esquema criminoso não apenas lavava dinheiro, mas também gerava lucros substanciais para os envolvidos no setor de combustíveis. Centenas de empresas foram criadas com o intuito de ocultar a origem e o destino dos recursos financeiros. As investigações revelaram que as transações eram feitas por meio de fintechs, aumentando a dificuldade de rastreamento em comparação a bancos tradicionais.
As fintechs exploravam lacunas na regulamentação, permitindo que dinheiro ilícito fosse integrado ao sistema financeiro. Uma fintech, identificada como um “banco paralelo” da facção, movimentou aproximadamente R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024. Este sistema ainda se utilizava de “contas-bolsão”, onde os recursos de todos os clientes eram misturados, dificultando ainda mais a rastreabilidade.
Reações e declarações das empresas envolvidas
Empresas citadas na investigação, como a rede de combustíveis em Jardinópolis, afirmaram que operam dentro da legalidade e cumprem rigorosamente todas as obrigações fiscais e tributárias. A usina em Pontal, que também foi alvo da operação, ressaltou que colaborou com as autoridades e que suas operações financeiras estão totalmente em conformidade com as leis em vigor.
Os dois escritórios de investimento alvos da operação, em Ribeirão Preto e Barretos, foram contatados, mas não retornaram aos pedidos de comentário até o fechamento desta reportagem. As investigações continuam em andamento, com potencial para novos desdobramentos conforme mais informações forem processadas.
A gravidade das operações levantam questões sobre a eficácia das regulamentações financeiras, especialmente no que diz respeito às fintechs e à necessidade de uma supervisão mais rigorosa para evitar que situações como essas se repitam, comprometendo não só a economia, mas toda a sociedade.
Em um momento em que a confiança no sistema financeiro é crucial, a sociedade aguarda pelas próximas etapas da Operação Carbono e pelos desdobramentos que ela poderá trazer.