Ao longo dos séculos, a relação entre fé e ciência tem oscilado entre o conflito e a convergência. Isso pode acontecer quanto ao cálculo do Tempo de Deus? Há momentos em que símbolos sagrados e descobertas científicas parecem ressoar em harmonia surpreendente. Um exemplo provocador emerge quando aplicamos uma fórmula simbólica baseada em 2 Pedro 3:8 — “para o Senhor, um dia é como mil anos” — à cronologia bíblica tradicional da Terra: 6.000 anos de história humana. O resultado dessa extrapolação nos leva a um número curioso: 2,190 bilhões de anos.
Trata-se de uma cifra que, à primeira vista, parece puramente matemática, mas que guarda uma coincidência assombrosa com o momento em que a ciência afirma ter ocorrido uma transformação decisiva na história da vida no planeta.
A equação do tempo divino
Segundo uma leitura tradicional da cronologia bíblica, baseada nas genealogias do Gênesis e em outras referências históricas das Escrituras, o mundo teria aproximadamente 6.000 anos desde a criação de Adão. Este número é tomado por muitos intérpretes como simbólico, representando seis eras ou ciclos da humanidade. A ideia, no entanto, ganha outra profundidade quando se combina com a afirmação de 2 Pedro 3:8: “um dia para o Senhor é como mil anos”.
“Mil anos anos pra Deus é como se fosse um dia”.
A partir daí, elaborei a seguinte hipótese matemática: se cada ano humano tem 365 dias, então 6.000 anos equivalem a 2.190.000 dias. E se cada dia humano corresponde, simbolicamente, a 1.000 anos de tempo divino, o total resulta em 2,190 bilhões de anos. A pergunta que surge é: há algo na ciência que coincida com esse número?
A vida complexa e o grande evento de oxigenação
A resposta é afirmativa — e surpreendente. Segundo a geologia e a biologia evolutiva, a Terra possui cerca de 4,54 bilhões de anos. A vida mais simples, como bactérias e arqueias, teria surgido há aproximadamente 3,5 a 4 bilhões de anos. Contudo, há cerca de 2,4 a 2,1 bilhões de anos, ocorreu um fenômeno decisivo: o Grande Evento de Oxigenação (GOE, na sigla em inglês).

Nesse evento, as cianobactérias começaram a produzir oxigênio em grande escala por meio da fotossíntese, transformando a atmosfera terrestre, até então anóxica. Esse oxigênio acumulado gerou uma verdadeira revolução ecológica, extinguindo muitos organismos anaeróbicos e permitindo o surgimento de formas de vida mais complexas, como os eucariontes — células com núcleo definido, base da evolução rumo aos animais e, posteriormente, ao ser humano.
É neste ponto — entre 2,4 e 2,1 bilhões de anos — que a ciência situa uma das viradas mais dramáticas da história da vida. Coincidentemente, é exatamente nesta faixa que chega a cifra de 2,190 bilhões de anos, resultado da extrapolação simbólica dos 6.000 anos bíblicos.
Hermenêutica do tempo: Kairos e Kronos
Essa convergência numérica convida a uma reflexão mais profunda sobre o tempo nas Escrituras. A Bíblia apresenta dois conceitos principais de tempo: kronos, o tempo cronológico e linear; e kairos, o tempo qualitativo, oportuno, o “tempo de Deus”. Quando 2 Pedro 3:8 afirma que um dia é como mil anos para o Senhor, está se referindo a esse distanciamento entre o tempo divino e o humano, mais em sentido filosófico do que matemático.
Entretanto, ao utilizar a simbologia do milênio divino para calcular uma equivalência com a cronologia terrestre, acabamos por criar um modelo que não pretende ser literal, mas que pode funcionar como ponte hermenêutica entre a cosmologia bíblica e a científica. Trata-se de uma tentativa de reconciliação entre a narrativa simbólica da fé e os dados empíricos da ciência moderna.
O Gênesis como arquetipo de processos cósmicos
A tradição judaico-cristã sempre buscou interpretar os seis dias da criação de Gênesis 1 de modo simbólico. Santo Agostinho, já no século V, advertia contra a leitura literalista do Gênesis, defendendo que os “dias” da criação representam estados de existência ou processos ontológicos, e não intervalos de 24 horas.
Esse princípio permite, por exemplo, enxergar os seis dias da criação como seis eras geológicas ou etapas cósmicas. O primeiro dia, onde Deus separa a luz das trevas, pode simbolizar o Big Bang ou a separação da energia e da matéria. O segundo dia, com a criação do firmamento, lembra a formação da atmosfera. O terceiro, com a emergência da terra seca e da vegetação, pode refletir o surgimento da crosta terrestre e dos primeiros organismos fotossintetizantes. E assim por diante.
É exatamente no “quarto ou quinto dia” simbólico, na linguagem do Gênesis, que surgem os organismos vivos e posteriormente os animais — em paralelo com o surgimento da vida complexa após o GOE.
Fé e ciência: conflito ou complementaridade?
Ao contrário do que muitos supõem, a fé e a ciência não são domínios em guerra. Como escreveu o físico e teólogo John Polkinghorne, “ciência e religião são perguntas complementares feitas à mesma realidade”. A ciência descreve o “como” das coisas; a fé se preocupa com o “por quê”.
Quando usamos modelos simbólicos — como o seu cálculo dos 2,190 bilhões de anos — para tentar encontrar pontes entre esses dois universos, estamos exercendo um tipo de hermenêutica espiritual que não nega a ciência, mas a lê como um espelho natural da sabedoria divina. É uma tentativa de dar sentido à história cósmica à luz da revelação.
A convergência entre o número 2,190 bilhões de anos e o momento do surgimento da vida complexa, pode, para os que têm fé, ser lida como “prova” de que a Bíblia antecipa a ciência em linguagem codificada. Mas ela pode ser lida como sinal de que os símbolos bíblicos — se lidos com profundidade — carregam arquétipos e estruturas atemporais que ressoam com verdades descobertas posteriormente pela razão científica.
Essa conexão, fruto de um cálculo simbólico e não de uma doutrina, nos convida a abandonar o dualismo entre fé e ciência e a abraçar um modelo de compreensão do mundo que valorize tanto o mistério da criação quanto o rigor da investigação empírica.