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Editorial

Não façam da crise uma guerra política

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A Prefeitura de Teresina tem conduzido de maneira errada a gestão da crise no Transporte Coletivo de Teresina. Insiste em apenas uma retórica: culpar os empresários do setor. Mas o problema é mais profundo e vai além de erros cometidos no passado. Se eles existiram, é claro que devem ser avaliados, mas a questão agora é outra.

Vários setores empresariais, diante da crise da pandemia no Brasil, tiveram auxílio do Governo Federal, principalmente aqueles que exploram concessões públicas. O setor aéreo foi um exemplo claro. Junto com o setor de energia e grandes varejistas, R$ 40 bilhões foram costurados para socorrer as empresas. Justo. Mas o mesmo não ocorreu com o setor do Transporte Coletivo Urbano.

A Lei proposta pela Câmara Federal e aprovada pelo Senado foi vetada pelo presidente Bolsonaro. Estavam previstos R$ 4 bilhões em auxílio aos operadores de concessões de transporte público. O dinheiro não veio em 2020. A crise veio ainda pior.

Somado aos problemas do setor, praticamente todas as capitais do Brasil vivem uma crise há tempos na área de transporte público. Em Brasília, por exemplo, hoje mesmo os trabalhadores param suas atividades. Ameaça de 100% de comprometimento da frota.

Em Teresina, os usuários convivem com o problema há muito tempo. E os empresários também. Com o passar dos anos, por falta de investimentos na qualidade do transporte urbano de Teresina, os passageiros foram diminuindo, encontrando outras soluções para deslocamento urbano.

Além disso, a própria Prefeitura de Teresina, na gestão anterior, ainda em 2014, começou um processo de mudanças no sistema que ocasionou grandes problemas a acabou por se revelar mais ineficiente que o anterior. Empresários do setor foram contra à época, mas não foram ouvidos.

Ninguém esperava uma pandemia. Mas ela veio. E um dos setores mais impactados foi justamente o Transporte Coletivo. Impactado pelas medidas restritivas que diminuíram ainda mais o número de passageiros, pela crise econômica e pela própria mudança de hábitos inerentes por exemplo aos home offices – padrão que veio para ficar e que reduz substancialmente o número de usuários do transporte coletivo.

Mas em meio a tudo isso, problemas de uma dimensão e gravidade que precisam ser interpretados de uma maneira técnica para que soluções sejam encontradas, as discussões em torno da crise no sistema de Transporte Coletivo de Teresina toma dimensões acusatórias cujo caminho aponta para um radicalismo que só prejudica a população.

A última manifestação, a partir da Câmara de Vereadores, de que a licitação deveria ser anulada, veio num momento tão oportuno quanto dar parabéns a alguém num velório. O setor vive uma crise sem precedentes no Brasil, que empresário viria investir no sistema de Teresina diante do cenário atual de tantas incertezas, parte delas geradas anteriormente pelo Plano Diretor de Mobilidade Urbana, parte pelo grave problema da pandemia no país?

Está faltando profissionalismo na forma de encarar o problema. A crise está sem direção para uma saída. Sobram declarações que não levam a nenhuma solução e falta profissionalismo, e conhecimento e técnica para resolver o problema.

É preciso que o Ministério Público e o próprio Tribunal de Contas ajudem na mediação do conflito estabelecido entre empresários do setor e gestores. É preciso levar em consideração a crise brasileira gerada pela pandemia, mas é necessário, além de tudo isso, a sensibilidade que somente aqueles que verdadeiramente querem resolver um problema tem.

Demonizar empresários é uma prática rotineira. É fácil culpar sem entender os motivos. Isso acontece desde os tempos do império, quando Pedro II perseguiu o Barão de Mauá e provocou sua falência.

Mas é preciso lembrar também que sem a iniciativa privada as soluções demoram mais a chegar. 

Precisamos de bom senso. Como se diz hoje nas redes sociais, “um pouco de empatia, porque ninguém está bem”. Realmente, nem os usuários do sistema, nem os motoristas, cobradores e mecânicos, nem os empresários. E também nem os políticos. Dormir com um problema do tamanho da crise do transporte coletivo de Teresina não é fácil para ninguém. 

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Editorial

No país das maravilhas

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O depoimento de Fábio Wajngarten na CPI da Covid durou cerca de 10h. No seu longo testemunho, o ex-secretário de Comunicação da Presidência da República conseguiu desagradar ao governo Bolsonaro e aos integrantes da CPI. Nem de longe Wajngarten lembrava o homem que em entrevista à revista Veja havia chamado de incopentente o Ministério da Saúde chefiado pelo ex-ministro Pazuello.

O tom agressivo e impositivo deu lugar ao vitimismo que o bolsonarismo tanto repudia. Com respostas longas, numa clara estratégia de tergiversar, Fábio Wajngarten tirou do sério os senadores ao ponto de pelo menos três integrantes da CPI pediram sua prisão, incluindo o relator, senador Renan Calheiros. Exagero? Talvez. Mas isso foi apenas uma amostra de quão exaltados estavam os ânimos.

Apesar de não integrar a CPI da Covid, o filho do presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro, pediu a palavra. Tem esse direito como senador. Já passavam das nove horas de depoimento quando o cansaço dos integrantes e da própria testemunha foi quebrado pela adrenalina causada por um xingamento de Flávio Bolsonaro dirigido a Renan Calheiros: vagabundo!, disse o filho 01 do presidente.

O fato serviu para acordar o Brasil. Tem algo muito sério acontecendo naquela CPI e ele não é apenas o reflexo da crise causada pela pandemia da covid-19. O Brasil está doente politicamente. Contaminado por um vírus chamado polarização. E mais brasileiros serão infectados por ele até a eleição de 2022. A CPI da Covid é a demonstração disso.

Também foi uma demonstração do amadorismo dos integrantes do governo. Fábio Wajngarten era um menino no meio de leões. Um então secretário de Comunicação que se envolveu na negociação de compras de vacinas – algo que não era de sua alçada. Deixou margem para que boatos sobre suas intenções circulassem na República. Afinal, o que queria ele se envolvendo com isso?

Justamente para esclarecer isso, ele teria dado a entrevista à Veja, que tanto desagradou ao governo Bolsonaro. Despreparado, foi à CPI para mostrar serviço aos bolsonaros e defender o ex-chefe. Piorou a situação com declarações que beiravam a dissimulação e incomodava até quem assistia ao espetáculo na TV Senado. “Circo”, disse o senador Flávio Bolsonaro no seu arroubo, e podemos completar: de horrores.

O Brasil está longe de ser um país evoluído politicamente.

Enquanto a CPI corria, Bolsonaro participava de uma cerimônia no Palácio do Planalto. Em seu discurso, disse: “o Brasil é um país maravilhoso”. Para quem, senhor presidente? Para quem este país é maravilhoso quando temos uma das piores representações políticas já vistas na República.

Certamente, não é um país maravilhoso para aqueles que perderam seus entes queridos na pandemia, nem para os empresários que faliram, muito menos para os trabalhadores que perderam seus empregos.

Não somos um país maravilhoso, mas somos “o país das maravilhas” para os praticantes da corrupção que assistiram o lacônico fim da lava jato, para políticos populistas que não medem o impacto e consequências de suas declarações desde que elas contribuam para aumentar o número de seguidores em suas redes sociais.

Numa das passagens do livro Alice no País das Maravilhas, escrito pelo inglês Lewis Carroll e publicado originalmente em 1865, a rainha de Copas disse: “Não sou louca, apenas a minha realidade é diferente da sua”.

Esperamos que o Brasil consiga descobrir qual é a realidade de Jair Bolsonaro. 

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90 dias de julgamento

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As últimas declarações do presidente Bolsonaro sobre o vírus e a questão do uso da cloroquina como tratamento precoce contra a covid-19 evidenciam que o Planalto continua numa linha de comunicação de separar o país entre quem apoia ou não o presidente da República.

O sistema binário de posições tem funcionado, politicamente, para Jair Bolsonaro (sem partido). Essa estratégia, do zero ou um, na construção de um raciocínio lógico, tem evitado o nascimento de uma terceira via no Brasil.

Em cada declaração, o presidente consegue substituir a pauta de 2018 – o anti-pt e a anticorrupção – por uma discussão de opiniões onde estão os opostos no ringue os que são contra ou a favor do uso da hidroxicloroquina e das medidas de distanciamento social. Está dando certo. Cada vez mais o país está dividido.

Mas, para ter êxito no seu discurso político, onde ontem ele incluiu a China como protagonista, sendo o pano de fundo do enfrentamento ao comunismo – presente no imaginário popular de pelo menos 30% dos eleitores brasileiros, todos, apoiadores do presidente – o presidente Bolsonaro precisa contar com um fator: o governo precisa vencer a retórica da CPI da Pandemia no Senado. Até agora, não está fácil.

Os depoimentos das testemunhas, até agora três, dois ex-ministros, Henrique Mandetta e Nelson Teich, e um atual, Marcelo Queiroga, colocam mais areia na engrenagem que faz a opinião pública pensar – isso corresponde aos outros 70% da população, dos quais Bolsonaro precisa de pelo menos 21% para vencer a eleição em 2022.

Até agora, os governistas ficaram presos à questão do uso da cloroquina, enquanto senadores de oposição passeiam sobre outros temas atrelados à própria personalidade do presidente da República e como ele se comporta em público. A orientação do Planalto para a defesa na CPI está voltada apenas a atender aos anseios de seu eleitorado. Esquecem os especialistas em gerenciamento de crise que orientam o governo que os espectadores da CPI da Pandemia, seja ao vivo na transmissão da TV Senado reverberada por canais pagos como a GloboNews e CNN Brasil, ou depois dos cortes nos telejornais das emissoras abertas, ou mesmo nas edições produzidas por opositores que varrem as redes sociais, o discurso atinge bem mais do que os tais 30% de eleitores brasileiros.

Na primeira semana de CPI, o governo perdeu as batalhas em praticamente todos os dias. Se Teich foi, de certa forma, uma decepção para a oposição, Marcelo Queiroga, o atual ministro da Saúde, foi, em grande parte, uma decepção para o governo. Apesar de estar há pouco tempo à frente do Ministério, caiu em contradições básicas relacionadas à sua própria profissão, e isso foi muito bem explorado pelos senadores de oposição que são médicos, assim como Queiroga.

De todos os ministros que já passaram pela pasta, Marcelo Queiroga tem o maior de todos os desafios: ele está no meio de duas guerras, contra o vírus e contra a política eleitoral. Nas duas, conta com o mesmo exército.

Para muitos que analisaram seu depoimento, o ministro omitiu-se em uma defesa contundente sobre as ações do presidente durante a pandemia. O Planalto deve lembrar que na CPI já ocorre um julgamento por parte da sociedade. E ele dura 90 dias.

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