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Editorial

O desabafo de Ramos

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Depois de instalada uma CPI parece que se abrem as portas do “inferno astral” do governo. A história demonstra que uma sequência de coisas absurdas e fatos passam a acontecer ou serem revelados. De irmão denunciando a caseiro delatando. Isso ocorre desde que CPI é CPI.

Talvez por isso uma antra é repetido tantas vezes no congresso nacional “a gente sabe como a CPI comércio mas ninguém sabe como termina”, dizem os congressistas. Até o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, disse isso recentemente. E o primeiro dia de CPI da Covid já demonstra que o “mantra” dos congressistas tem razão de ser.

Uma reunião onde estavam presentes os ministros da casa civil, Luíz Eduardo Ramos e Paulo Guedes, da economia, estava sendo gravada e transmitida pela internet, mas sem o conhecimento dos participantes. Resultado? Falaram muito, como fazem os bolsonaristas.

Prato cheio para o vazamento de declarações dos ministros. E pelo seu teor, elas servem como combustível para incendiar a CPI da Covid.

Num ato de inconfidência de Luíz Eduardo Ramos – que mais parecia um desabafo – o ministro relatou ter sido vacinado escondido por orientação do Palácio do Planalto! Quando autoridades deveriam da exemplo público de incentivo a vacinação, para tentar acabar de vez com a onda negacionista que persiste no país, é “nas escondidas” que ministros tomam suas doses. Uma situação humilhante, não para eles, mas para o Brasil.

Do outro lado da mesa estava Paulo Guedes, o ministro da economia, repetindo o mantra bolsonarista de que o vírus seria uma criação dos chineses. Nada pior para agravar a já grave relação entre o Brasil e a China, país que é o maior importador de soja e maior fornecedor de mercadorias para o nosso, inclusive, o insumo para fabricação das vacinas CoronaVac, pelo Butantan, e Oxford, pela Fiocruz.

Além de impertinente, a declaração é inconcebível do ponto de vista diplomatico e incabível na boca de um ministro de estado, principalmente um dos principais, como é Paulo Guedes, à frente de mada menos que a economia.

Longe do Congresso Nacional e no meio do povão há um outro ditado, este, popular: “em boca fechada não se entra mosca”.

Se ao menos se os membros do governo se atentassem para esses simplórios ditados, já seria suficiente para o governo Bolsonaro evitar muitos do seus problemas – e dos nossos – já que, a maioria deles, são gerados a partir de declarações do próprio Presidente da República e, agora, de Paulo Guedes e Ramos.

Realmente, não sabemos como uma CPI termina, mas essa, já sabemos como começou. E foi muito mal para o governo.

Se continuarem com suas trapalhadas, como um tal documento, enviado os ministérios, fazendo perguntas que mais pareciam uma autodeclaração de culpa sobre como o governo enfrentou a pandemia, é possível prever o final da CPI da Covid: trágico para Bolsonaro.

Se a CPI não resultar no impeachment do próprio Presidente da República, ou em processos movidos pelo ministério público Federal contra autoridades e gestores públicos, já é certo que a CPI da Covid vai conseguir expor o caráter simplório, diminuto e impreciso das ações executadas pelo governo federal.

No mínimo, Bolsonaro vai ser exposto em praça pública como um presidente envergonhado, senão por suas atitudes, mas pela revelação delas em público. Se é que, à essa altura, os integrantes do governo, e os políticos que o apoiam, ainda tem algumas vergonha.

Vergonha, se a tem , não adianta mais tentar escondê-la.

Já está demonstrando que a equipe de Bolsonaro não tem a mínima condição de enfrentar a CPI da Covid, quanto mais teria condição de enfrentar a própria pandemia.

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Editorial

A volta que Bolsonaro dá

Editoral sobre a filiação do presidente Bolsonaro ao PL.

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Depois de dois anos sem partido, após frustada tentativa de fundar uma sigla para charmar de sua e de “namorar” diversos partidos, Jair Bolsonaro entrou para o PL, de Valdemar Costa Neto.

Até chegar ao Partido Liberal, o mesmo que foi aliado do PT e cujo presidente foi preso no escândalo de corrupção conhecido como Mensalão, Jair Bolsonaro fez um longo caminho cheio de curvas até voltar para sua origem: o Centrão.

Como bem disse hoje durante sua filiação: “eu vim do meio de vocês”. O “vocês” eram os caciques do Centrão pragmático envolvido em denúncias de corrupção com políticos que se misturaram ao que de pior havia durante os governos Lula e Dilma. São os mesmos que a Lava Jato denunciou. A mesma Lava Jato que Bolsonaro enterrou.

Junto com os restos mortais da maior operação de combate à corrupção já vista no mundo, Bolsonaro sepultou seu próprio discurso político, afinal, quem não lembra do velho general Heleno cantando “se gritar pega Centrão, não fica um meu irmão”, ou o então contundente discurso do filho 03 do presidente, durante a convenção que homologou a candidatura do pai, em 2018, questionando “se vocês vão se deixar seduzir por discurso do Centrão”.

“Eu queria tirar fotos dos rostos de cada um dos Srs. aqui. Pra saber, se em 2019, quando o couro comer pra valer, se vocês vão se deixar seduzir por discurso do Centrão ou se vão se manter firme e forte Bolsonaro”

deputado federal eduardo bolsonaro, agosto de 2018

Das bravatas de 2018 sobre “combater o Centrão”, não aceitar indicações políticas e outras coisas mais – que na verdade eram frases que a maioria dos brasileiros queriam ouvir – restam pouco daquele Jair Bolsonaro de 2018.

Sobraram os frangalhos do discurso conversador, que na prática não se traduziu em conquistas conservadoras, e o apelo religioso evangélico com que ele se apega para garantir a fatia do eleitorado mais influenciável por lideranças religiosas.

Da economia, pouco sobrou. O aumento da inflação com reflexo nos alimentos e o problema do preço dos combustíveis, jogou por terra (para debaixo dela) a esperança de um país próspero.

Bolsonaro deu muitas voltas e acabou no lugar onde começou sua carreira política. No meio deles.

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Editorial

No país das maravilhas

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O depoimento de Fábio Wajngarten na CPI da Covid durou cerca de 10h. No seu longo testemunho, o ex-secretário de Comunicação da Presidência da República conseguiu desagradar ao governo Bolsonaro e aos integrantes da CPI. Nem de longe Wajngarten lembrava o homem que em entrevista à revista Veja havia chamado de incopentente o Ministério da Saúde chefiado pelo ex-ministro Pazuello.

O tom agressivo e impositivo deu lugar ao vitimismo que o bolsonarismo tanto repudia. Com respostas longas, numa clara estratégia de tergiversar, Fábio Wajngarten tirou do sério os senadores ao ponto de pelo menos três integrantes da CPI pediram sua prisão, incluindo o relator, senador Renan Calheiros. Exagero? Talvez. Mas isso foi apenas uma amostra de quão exaltados estavam os ânimos.

Apesar de não integrar a CPI da Covid, o filho do presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro, pediu a palavra. Tem esse direito como senador. Já passavam das nove horas de depoimento quando o cansaço dos integrantes e da própria testemunha foi quebrado pela adrenalina causada por um xingamento de Flávio Bolsonaro dirigido a Renan Calheiros: vagabundo!, disse o filho 01 do presidente.

O fato serviu para acordar o Brasil. Tem algo muito sério acontecendo naquela CPI e ele não é apenas o reflexo da crise causada pela pandemia da covid-19. O Brasil está doente politicamente. Contaminado por um vírus chamado polarização. E mais brasileiros serão infectados por ele até a eleição de 2022. A CPI da Covid é a demonstração disso.

Também foi uma demonstração do amadorismo dos integrantes do governo. Fábio Wajngarten era um menino no meio de leões. Um então secretário de Comunicação que se envolveu na negociação de compras de vacinas – algo que não era de sua alçada. Deixou margem para que boatos sobre suas intenções circulassem na República. Afinal, o que queria ele se envolvendo com isso?

Justamente para esclarecer isso, ele teria dado a entrevista à Veja, que tanto desagradou ao governo Bolsonaro. Despreparado, foi à CPI para mostrar serviço aos bolsonaros e defender o ex-chefe. Piorou a situação com declarações que beiravam a dissimulação e incomodava até quem assistia ao espetáculo na TV Senado. “Circo”, disse o senador Flávio Bolsonaro no seu arroubo, e podemos completar: de horrores.

O Brasil está longe de ser um país evoluído politicamente.

Enquanto a CPI corria, Bolsonaro participava de uma cerimônia no Palácio do Planalto. Em seu discurso, disse: “o Brasil é um país maravilhoso”. Para quem, senhor presidente? Para quem este país é maravilhoso quando temos uma das piores representações políticas já vistas na República.

Certamente, não é um país maravilhoso para aqueles que perderam seus entes queridos na pandemia, nem para os empresários que faliram, muito menos para os trabalhadores que perderam seus empregos.

Não somos um país maravilhoso, mas somos “o país das maravilhas” para os praticantes da corrupção que assistiram o lacônico fim da lava jato, para políticos populistas que não medem o impacto e consequências de suas declarações desde que elas contribuam para aumentar o número de seguidores em suas redes sociais.

Numa das passagens do livro Alice no País das Maravilhas, escrito pelo inglês Lewis Carroll e publicado originalmente em 1865, a rainha de Copas disse: “Não sou louca, apenas a minha realidade é diferente da sua”.

Esperamos que o Brasil consiga descobrir qual é a realidade de Jair Bolsonaro. 

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