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Editorial

As voltas que Bolsonaro dá

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“Política é como nuvem. Você olha, está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. A frase do ex-goavernador de Minas, Magalhães Pinto, continua valendo 50 anos depois que foi proferida e resume os movimentos políticos do presidente Bolsonaro.

Depois de ser eleito criticando o Centrão, se tornou aliado do bloco de partidos mais influente da política brasileira. A política velha foi rapidamente incorporada por Bolsonaro e seu movimento passou em brancas nuvens para grande parte dos seus eleitores.

Em 2019, seis meses depois de assumir a Presidência da República, Bolsonaro deixou o partido pelo qual fora eleito em 2018, o PSL. Sob uma tempestade de críticas, saiu da sigla e tentou fundar uma nova, o Aliança pelo Brasil. Sem sucesso, não choveu na horta do presidente. Quase dois anos após o início das coletas das assinaturas para a criação do partido que ele chamaria de seu, a sigla não saiu do papel.

Com a proximidade das eleições e a um ano do prazo final de filiação partidária, pré-requisito para qualquer cidadão ser candidato, inclusive o presidente da República, Bolsonaro ainda não definiu o rumo que vai tomar. Foi cortejado pelo PTB, de Roberto Jefferson, o autointitulado “leão conservador” e um dos últimos convertidos ao bolsonarismo, pelo quase ex-correligionário, Adilson Barroso, presidente do Patriota, partido que Jair Bolsonaro, então pré-candidato, disse que iria, mas não foi. Até o Progressistas de Ciro Nogueira ensaiou um tímido convite para o presidente retornar à casa como um bom filho (e aliado) – mas ninguém acreditou, talvez nem mesmo o próprio Bolsonaro.

Não faltam convites de pequenos partidos que sonham com o crescimento de seus partidos, como aconteceu com o PSL, que saiu de um nanico para o segundo maior partido do Brasil com a eleição de Bolsonaro em 2018. Mas como disse Magalhães Pinto, as nuvens são outras. É difícil o presidente repetir o feito daquela eleição, apesar da política nacional continuar polarizada. Desgastado, Bolsonaro sabe hoje que outra frase cunhada pelo adversário José Dirceu é uma verdade: “a cadeira de presidente da República queima”.

Bolsonaro não é o mesmo de 2018. Nem ele, nem os que o apoiam e muito menos a sociedade brasileira. Estamos todos cansados com as nuvens carregadas sobre nossas cabeças, vivendo todo dia uma tempestade de problemas em decorrência da pandemia e dos erros dos políticos.

Vem aí uma CPI que pode mudar os rumos da política trazendo surpresas como, aliás, aconteceu com todas as outras Comissões Parlamentares de Inquérito: elas começam de um jeito e ninguém sabe como termina. 

É difícil saber como estarão as nuvens no céu de 2022. Seja como for, torcemos apenas que o sol esteja brilhando para todos.

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Editorial

No país das maravilhas

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O depoimento de Fábio Wajngarten na CPI da Covid durou cerca de 10h. No seu longo testemunho, o ex-secretário de Comunicação da Presidência da República conseguiu desagradar ao governo Bolsonaro e aos integrantes da CPI. Nem de longe Wajngarten lembrava o homem que em entrevista à revista Veja havia chamado de incopentente o Ministério da Saúde chefiado pelo ex-ministro Pazuello.

O tom agressivo e impositivo deu lugar ao vitimismo que o bolsonarismo tanto repudia. Com respostas longas, numa clara estratégia de tergiversar, Fábio Wajngarten tirou do sério os senadores ao ponto de pelo menos três integrantes da CPI pediram sua prisão, incluindo o relator, senador Renan Calheiros. Exagero? Talvez. Mas isso foi apenas uma amostra de quão exaltados estavam os ânimos.

Apesar de não integrar a CPI da Covid, o filho do presidente da República, o senador Flávio Bolsonaro, pediu a palavra. Tem esse direito como senador. Já passavam das nove horas de depoimento quando o cansaço dos integrantes e da própria testemunha foi quebrado pela adrenalina causada por um xingamento de Flávio Bolsonaro dirigido a Renan Calheiros: vagabundo!, disse o filho 01 do presidente.

O fato serviu para acordar o Brasil. Tem algo muito sério acontecendo naquela CPI e ele não é apenas o reflexo da crise causada pela pandemia da covid-19. O Brasil está doente politicamente. Contaminado por um vírus chamado polarização. E mais brasileiros serão infectados por ele até a eleição de 2022. A CPI da Covid é a demonstração disso.

Também foi uma demonstração do amadorismo dos integrantes do governo. Fábio Wajngarten era um menino no meio de leões. Um então secretário de Comunicação que se envolveu na negociação de compras de vacinas – algo que não era de sua alçada. Deixou margem para que boatos sobre suas intenções circulassem na República. Afinal, o que queria ele se envolvendo com isso?

Justamente para esclarecer isso, ele teria dado a entrevista à Veja, que tanto desagradou ao governo Bolsonaro. Despreparado, foi à CPI para mostrar serviço aos bolsonaros e defender o ex-chefe. Piorou a situação com declarações que beiravam a dissimulação e incomodava até quem assistia ao espetáculo na TV Senado. “Circo”, disse o senador Flávio Bolsonaro no seu arroubo, e podemos completar: de horrores.

O Brasil está longe de ser um país evoluído politicamente.

Enquanto a CPI corria, Bolsonaro participava de uma cerimônia no Palácio do Planalto. Em seu discurso, disse: “o Brasil é um país maravilhoso”. Para quem, senhor presidente? Para quem este país é maravilhoso quando temos uma das piores representações políticas já vistas na República.

Certamente, não é um país maravilhoso para aqueles que perderam seus entes queridos na pandemia, nem para os empresários que faliram, muito menos para os trabalhadores que perderam seus empregos.

Não somos um país maravilhoso, mas somos “o país das maravilhas” para os praticantes da corrupção que assistiram o lacônico fim da lava jato, para políticos populistas que não medem o impacto e consequências de suas declarações desde que elas contribuam para aumentar o número de seguidores em suas redes sociais.

Numa das passagens do livro Alice no País das Maravilhas, escrito pelo inglês Lewis Carroll e publicado originalmente em 1865, a rainha de Copas disse: “Não sou louca, apenas a minha realidade é diferente da sua”.

Esperamos que o Brasil consiga descobrir qual é a realidade de Jair Bolsonaro. 

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Editorial

90 dias de julgamento

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As últimas declarações do presidente Bolsonaro sobre o vírus e a questão do uso da cloroquina como tratamento precoce contra a covid-19 evidenciam que o Planalto continua numa linha de comunicação de separar o país entre quem apoia ou não o presidente da República.

O sistema binário de posições tem funcionado, politicamente, para Jair Bolsonaro (sem partido). Essa estratégia, do zero ou um, na construção de um raciocínio lógico, tem evitado o nascimento de uma terceira via no Brasil.

Em cada declaração, o presidente consegue substituir a pauta de 2018 – o anti-pt e a anticorrupção – por uma discussão de opiniões onde estão os opostos no ringue os que são contra ou a favor do uso da hidroxicloroquina e das medidas de distanciamento social. Está dando certo. Cada vez mais o país está dividido.

Mas, para ter êxito no seu discurso político, onde ontem ele incluiu a China como protagonista, sendo o pano de fundo do enfrentamento ao comunismo – presente no imaginário popular de pelo menos 30% dos eleitores brasileiros, todos, apoiadores do presidente – o presidente Bolsonaro precisa contar com um fator: o governo precisa vencer a retórica da CPI da Pandemia no Senado. Até agora, não está fácil.

Os depoimentos das testemunhas, até agora três, dois ex-ministros, Henrique Mandetta e Nelson Teich, e um atual, Marcelo Queiroga, colocam mais areia na engrenagem que faz a opinião pública pensar – isso corresponde aos outros 70% da população, dos quais Bolsonaro precisa de pelo menos 21% para vencer a eleição em 2022.

Até agora, os governistas ficaram presos à questão do uso da cloroquina, enquanto senadores de oposição passeiam sobre outros temas atrelados à própria personalidade do presidente da República e como ele se comporta em público. A orientação do Planalto para a defesa na CPI está voltada apenas a atender aos anseios de seu eleitorado. Esquecem os especialistas em gerenciamento de crise que orientam o governo que os espectadores da CPI da Pandemia, seja ao vivo na transmissão da TV Senado reverberada por canais pagos como a GloboNews e CNN Brasil, ou depois dos cortes nos telejornais das emissoras abertas, ou mesmo nas edições produzidas por opositores que varrem as redes sociais, o discurso atinge bem mais do que os tais 30% de eleitores brasileiros.

Na primeira semana de CPI, o governo perdeu as batalhas em praticamente todos os dias. Se Teich foi, de certa forma, uma decepção para a oposição, Marcelo Queiroga, o atual ministro da Saúde, foi, em grande parte, uma decepção para o governo. Apesar de estar há pouco tempo à frente do Ministério, caiu em contradições básicas relacionadas à sua própria profissão, e isso foi muito bem explorado pelos senadores de oposição que são médicos, assim como Queiroga.

De todos os ministros que já passaram pela pasta, Marcelo Queiroga tem o maior de todos os desafios: ele está no meio de duas guerras, contra o vírus e contra a política eleitoral. Nas duas, conta com o mesmo exército.

Para muitos que analisaram seu depoimento, o ministro omitiu-se em uma defesa contundente sobre as ações do presidente durante a pandemia. O Planalto deve lembrar que na CPI já ocorre um julgamento por parte da sociedade. E ele dura 90 dias.

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