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Editorial

Bolsonaro sempre foi fogo, mas brincaram com ele

Editorial sobre os acontecimentos envolvendo o governo Bolsonaro e as Forças Armadas.

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O Brasil foi surpreendido com a exoneração do ministro da defesa, General Fernando Azevedo e a saída dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Os fatos nas últimas 24 horas aumentaram as especulações sobre as intenções – as reais intenções – do presidente Bolsonaro. Por coincidência, tudo isso aconteceu na semana de aniversário do golpe militar de 1964. Neste 31 de Março, fazem 57 anos que os militares  assumiram o Poder da República e com ele permaneceram por mais de 20 anos.

Jair Bolsonaro nunca escondeu de ninguém sua admiração daqules tempos.  E nem por aqueles atores, celebrados em seus discursos quando deputado federal que foram até aqui interpretados como arroubos de um capitão da reserva saudosista.

Durante a eleição de 2018, Jair Bolsonaro também deixou claro sua preferência: reescrever aqueles 20 anos de páginas da nossa história. É evidente que se ele foi eleito é porque esse discurso não incomodava os eleitores, ou mesmo aqueles concordavam com seu pensamento.

O fato é que ao chegar ao poder Bolsonaro deixou sair os velhos fantasmas que assombraram o Brasil e os anos de  1964 a 1986. Vez por outra, desde que tomou posse em 2019, ele faz uso expressões como “regime militar”, “meu exército “, “eu faço o que o povo quer “, “eu sou  o defensor da Constituição”, “como é fácil por uma ditadura no Brasil ” e “Shazam! Eu viro ditador!”.

Ninguém achava que isso seria possível no país: tentar um golpe militar. O problema é que Jair Bolsonaro demonstrou que no Brasil tudo é possível, até a sua eleição. 

Mas o problema nunca foi Bolsonaro fazer isso, mas terem criadas por ele as condições para conseguir fazer.  

Tenham sido suas ações orquestradas ou não, ele conseguiu gerar instabilidade entre os poderes da República suficiente para um ruptura graças a tensão social ampliada em meio à pandemia de Covid-19.

Até aqui, manteve acesa sua militância e junto a ela conseguiu se eximar de qualquer responsabilidade sobre seus atos e palavras quando seu governo falhou no combate à doença que ceifou 317 mil vidas em números de hoje

Por pelo menos três vezes no último um ano e meio, ele chegou bem perto de provocar (ou conseguir) um rompimento. Contido pelo Supremo Tribunal Federal, ele fez do STF o inimigo número 1 de boa parte do país – e convenhamos a tarefa não foi tão difícil depois que o Supremo anulou a condenação do ex-presidente Lula.

Então veio a pandemia e ela tornou a tarefa de dividir o país ainda mais fácil. Ser contra o isolamento social, as medidas de lockdown e até o uso de máscaras, fez com que Bolsonaro encontrasse novamente o seu eleitorado que é bem mais ativo nas redes sociais do que qualquer outro.

Como já não podia  ter o Centrão como inimigo já que se juntou a ele, fez dos governadores seus adversários acusando-os de, através das medidas de isolamento social, estarem tirando a liberdade do povo brasileiro.

Em nome da defesa dessa tal liberdade, Bolsonaro pode fazer o inimaginável. Mas não seria inimaginável também a renúncia o exoneração simultânea do alto comando das Forças Armadas?

Até o fechamento deste editorial, 234 mil tweets compartilharam a hashtag #opovoestácombolsonaro.

No conteúdo, apologias a intervenção militar, acusações de que os militares que deixaram o governo são “melancias” – termo designado pelos apoiadores de Bolsonaro que definem os militares que seriam comunistas. Também havia menções contrárias ao lockdown e convocações para manifestações contra o comunismo, além de elogios ao presidente como “esse é o melhor presidente do mundo”

Tudo que o Bolsonaro precisa nesse momento é desse apoio “popular” para fazer o que ele sempre quis e dizia que poderia fazer. Há mais de 30 anos Bolsonaro repete o mesmo discurso e, mesmo que tivesse essa convicção, se tiver as condições e sentir apaio, ele o torna verdade

A queda dos militares do seu governo da alta cúpula das Forças Armadas serviu como combustível para sua militância. Após esses quase 250 mil tweets, ele só precisa de algumas manifestações em poucas capitais que reúnam pessoas vestidas de verde-amarelo e balançando a bandeira do Brasil.

Bolsonaro sempre foi fogo, mas brincaram com ele.

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