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Nossa guerra civil chegou

Artigo de Gabriel Petter, Mestre em Educação pela UFC, professor e escritor.

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Por Gabriel Petter

Perto de completar uma década, a trágica guerra civil na Síria, até agora, deixou um saldo superior à 380 mil mortos, conforme o Observatório Sírio para os Direitos Humanos. Desses, 115 mil são civis. No primeiro ano de Covid-19 no Brasil, até agora, contamos 311 mil óbitos. E os números não param de crescer. Só nas últimas 24 horas, 3438 brasileiros perderam suas vidas para a Covid-19. O ritmo do avanço da doença no país salta aos olhos. Só para se ter uma ideia: demorou apenas 28 dias para que fôssemos de 250 para 300 mil mortes. Em março de 2020, quando registrávamos apenas 201 mortes, pesquisadores da universidade Oxford projetavam 478 mil vidas brasileiras perdidas. A cifra absurda, um ano depois, parece estar próxima da realidade. Sem um lockdown nacional, vacinação em massa e nem medidas eficazes de apoio aos trabalhadores e aos negócios, além da circulação de novas e resistentes variantes, conseguimos consolidar o cenário da maior tragédia nacional da nossa história. Quando falamos em perdas humanas, só a grande seca de 1877 a 1879 é comparável. E não é exagero: na Guerra do Paraguai, a maior na qual o Brasil já se envolveu, o total de mortos foi de 50 mil. O número de pracinhas que pereceram durante a Segunda Guerra Mundial foi de 457. E até mesmo outra pandemia, a da gripe espanhola, acabou com as vidas de bem menos brasileiros: mais exatamente 30 mil pessoas.

Num país que não está propriamente em guerra civil, a pilha de cadáveres produzidos diariamente pela ação do novo coronavírus no Brasil decorre da ação combinada do poder público, especialmente do governo federal, e de setores da sociedade que, ou ignoram e se omitem perante a gravidade da situação, ou não têm condições de seguir à risca as medidas e os protocolos necessários para diminuir a circulação do vírus. Embora a Covid-19 mate tanto pobres como ricos, é evidente que os mais pobres são mais atingidos, tanto pela doença como pelos efeitos diretos da sua propagação, com o colapso do sistema público de saúde, já duramente atingido pela PEC 55, aprovada no governo Michel Temer, e a retração das atividades econômicas, provocando mais desemprego e perdas de arrecadação. Para boa parte do empresariado nacional, aliás, se manifestando muito tardiamente contra a ineficácia do governo Bolsonaro no combate à pandemia, está claro que a imunização em massa é a melhor medida para a recuperação econômica, preservando, ao mesmo tempo, a perda de mais vidas. Pressionado, Jair Bolsonaro faz uma espécie de jogo duplo. Ao mesmo tempo que nomeia um ministro da Saúde aparentemente comprometido com as medidas de isolamento social, continua estimulando o chamado “tratamento precoce”, isto é, o uso ineficaz de medicamentos como a hidroxicloroquina nos infectados pelo novo coronavírus.

Bolsonaro não está nem aí para quantos brasileiros ainda morrerão de Covid-19. Suas únicas metas, ao longo dos seus mais de dois anos de governo, foram garantir que seus filhos não parassem na cadeia, em função das suas práticas corruptas, e se reeleger. Com décadas de atuação política, ele sabe que a possível candidatura de Lula nas eleições de 2022 e sua péssima condução da maior crise sanitária do século XXI no Brasil, são fatores que jogam contra seu projeto de poder. E ele também sabe que, caso volte a ser um cidadão comum, as chances de responder criminalmente pelos seus atos e ser preso são muito grandes. Mas, mesmo que um dia o atual presidente seja devidamente responsabilizado e punido pelos seus crimes, ele poderá se orgulhar de ter cumprido pelo menos um dos seus objetivos: matar milhares de brasileiros. Numa célebre entrevista, em 1999, logo após a eleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o então deputado federal Jair Bolsonaro defendeu a guerra civil para “resolver” os problemas do país. Naquela época, ele estimou que precisaríamos matar 30 mil pessoas a fim de chegar sabe-se lá onde. 22 anos depois, ele mais que decuplicou a sua própria meta. Se naquele tempo Bolsonaro tivesse arriscado uma cifra X para o crescimento econômico, a fim de melhorar a situação dos brasileiros, e hoje a tivesse multiplicado por 10, certamente seria agraciado com um Nobel. Porém, com o crescimento exponencial de mortes entre seus concidadãos, num país que sequer está em guerra civil, o máximo que ele vai conquistar é a sua decadência política e uma triste página na nossa história.

Gabriel Petter da Penha – Mestre em Educação (UFC), com formação em Cinema e Audiovisual (Escola Pública de Audiovisual da Vila das Artes), é professor, escritor, realizador audiovisual produtor e cineclubista.

Originalmente Publicao no Blog do Autor

2 Comentários

2 Comments

  1. Rc Cursos Online

    30 de março de 2021 no 06:26

    Sou a Cíntia Morais, gostei muito do seu artigo tem muito
    conteúdo de valor parabéns nota 10 gostei muito.

  2. Pingback: Bolsonaro sempre foi fogo, mas brincaram com ele - Jornal Diário do Povo

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