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Editorial

90 dias de julgamento

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As últimas declarações do presidente Bolsonaro sobre o vírus e a questão do uso da cloroquina como tratamento precoce contra a covid-19 evidenciam que o Planalto continua numa linha de comunicação de separar o país entre quem apoia ou não o presidente da República.

O sistema binário de posições tem funcionado, politicamente, para Jair Bolsonaro (sem partido). Essa estratégia, do zero ou um, na construção de um raciocínio lógico, tem evitado o nascimento de uma terceira via no Brasil.

Em cada declaração, o presidente consegue substituir a pauta de 2018 – o anti-pt e a anticorrupção – por uma discussão de opiniões onde estão os opostos no ringue os que são contra ou a favor do uso da hidroxicloroquina e das medidas de distanciamento social. Está dando certo. Cada vez mais o país está dividido.

Mas, para ter êxito no seu discurso político, onde ontem ele incluiu a China como protagonista, sendo o pano de fundo do enfrentamento ao comunismo – presente no imaginário popular de pelo menos 30% dos eleitores brasileiros, todos, apoiadores do presidente – o presidente Bolsonaro precisa contar com um fator: o governo precisa vencer a retórica da CPI da Pandemia no Senado. Até agora, não está fácil.

Os depoimentos das testemunhas, até agora três, dois ex-ministros, Henrique Mandetta e Nelson Teich, e um atual, Marcelo Queiroga, colocam mais areia na engrenagem que faz a opinião pública pensar – isso corresponde aos outros 70% da população, dos quais Bolsonaro precisa de pelo menos 21% para vencer a eleição em 2022.

Até agora, os governistas ficaram presos à questão do uso da cloroquina, enquanto senadores de oposição passeiam sobre outros temas atrelados à própria personalidade do presidente da República e como ele se comporta em público. A orientação do Planalto para a defesa na CPI está voltada apenas a atender aos anseios de seu eleitorado. Esquecem os especialistas em gerenciamento de crise que orientam o governo que os espectadores da CPI da Pandemia, seja ao vivo na transmissão da TV Senado reverberada por canais pagos como a GloboNews e CNN Brasil, ou depois dos cortes nos telejornais das emissoras abertas, ou mesmo nas edições produzidas por opositores que varrem as redes sociais, o discurso atinge bem mais do que os tais 30% de eleitores brasileiros.

Na primeira semana de CPI, o governo perdeu as batalhas em praticamente todos os dias. Se Teich foi, de certa forma, uma decepção para a oposição, Marcelo Queiroga, o atual ministro da Saúde, foi, em grande parte, uma decepção para o governo. Apesar de estar há pouco tempo à frente do Ministério, caiu em contradições básicas relacionadas à sua própria profissão, e isso foi muito bem explorado pelos senadores de oposição que são médicos, assim como Queiroga.

De todos os ministros que já passaram pela pasta, Marcelo Queiroga tem o maior de todos os desafios: ele está no meio de duas guerras, contra o vírus e contra a política eleitoral. Nas duas, conta com o mesmo exército.

Para muitos que analisaram seu depoimento, o ministro omitiu-se em uma defesa contundente sobre as ações do presidente durante a pandemia. O Planalto deve lembrar que na CPI já ocorre um julgamento por parte da sociedade. E ele dura 90 dias.

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