Crisleia Rodrigues, de 28 anos, foi reconhecida como a primeira advogada quilombola do Piauí pela Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas após receber a carteira da Ordem dos Advogados do Brasil em agosto de 2026.
Nascida na Comunidade Quilombola Saco Curtume, na zona rural de São João do Piauí, Crisleia concluiu o curso de Direito em 2024 e atualmente trabalha em escritório próprio, também localizado na zona rural do município.
Segundo a advogada, a trajetória foi marcada por dificuldades financeiras, pela distância do filho e por episódios de preconceito durante a graduação em uma faculdade particular.
Crisleia começou a trabalhar ainda jovem em serviços domésticos, como auxiliar de cozinha. No fim de 2018, conseguiu uma bolsa de estudos após ser aprovada em um processo seletivo realizado em São João do Piauí e em Picos.
A iniciativa fazia parte de um projeto idealizado por Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo. Como contrapartida pelo arrendamento de áreas para geração de energia, uma empresa do setor ofereceu bolsas a jovens de comunidades quilombolas da região.
Depois de se mudar para Picos para estudar, Crisleia trabalhou como babá para custear despesas. Ela também precisou ficar longe do filho, que tinha menos de um ano quando a graduação começou.
“Pensei em desistir várias vezes. A saudade de casa, do meu filho e da minha família me consumia”, afirmou.
A advogada relatou ainda ter enfrentado preconceito por ser quilombola e ter estudado em escola pública. “Nos olhavam como se fôssemos incapazes. Ser quilombola e vir de escola pública era algo que incomodava algumas pessoas”, disse.
De acordo com a Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas, que acompanha a trajetória da profissional desde a graduação, Crisleia era, até a publicação da reportagem, a única quilombola formada em Direito e com inscrição ativa na OAB.
“Tive que estudar o triplo para vencer um sistema que, na maioria das vezes, é injusto. Engolir o choro foi necessário por diversas vezes”, declarou.
Fonte: g1