Ir para o conteúdo

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Jornalismo local, independente e responsável

Jornal Diário do Povo

ECONOMIA

Etanol de milho cresce no Brasil e amplia debate sobre uso da terra

Expansão do etanol de milho no Brasil aumenta a produção, mas levanta dúvidas sobre uso da terra, origem da lenha e demanda futura.

Compartilhe
WhatsApp

A expansão do etanol de milho no Brasil, que chegou a cerca de 10 bilhões de litros em menos de uma década, amplia discussões sobre uso da terra, origem da biomassa e capacidade de consumo dos novos mercados. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta que o combustível responderá por quase 30% do etanol produzido no país na safra 2026/27.

O setor conta com 29 biorrefinarias em operação e quase 30 projetos autorizados ou previstos, segundo levantamento da União Nacional do Etanol de Milho (Unem). Mato Grosso concentra a maior parte da atividade, seguido por Mato Grosso do Sul.

Na Europa, o movimento “food or fuel” questiona o uso de terras para produzir biocombustíveis, inclusive diante do avanço sobre áreas de floresta. No Brasil, a principal preocupação ambiental envolve a possibilidade de uso de lenha proveniente de desmatamento ilegal nas caldeiras das usinas.

Analistas afirmam que o modelo brasileiro reduz a competição com a produção de alimentos porque o milho usado no combustível é, em grande parte, o da segunda safra, plantado após a soja na mesma área. O farelo proteico DDG, subproduto do processamento, também é utilizado na alimentação do gado e pode diminuir a necessidade de pastagens extensivas.

Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, avalia que agricultura, pecuária e produção de etanol podem crescer de forma integrada no país. Segundo ele, a expansão da soja e do milho ocorreu junto com a do etanol sem aumento proporcional da área cultivada.

A produção brasileira de grãos deve alcançar 367,1 milhões de toneladas na safra 2026/27, de acordo com a Conab. A colheita de milho é estimada em 148 milhões de toneladas, alta de 2,4% em relação à safra anterior, impulsionada também pela demanda das usinas.

A primeira usina brasileira dedicada exclusivamente ao etanol de milho foi inaugurada em 2017, em Lucas do Rio Verde (MT). A produção de milho safrinha deve crescer quase 70% no período, segundo a Conab.

A proximidade entre as usinas e as lavouras é apontada como uma vantagem por reduzir perdas e custos de transporte. A FS, pioneira e segunda maior produtora nacional do combustível, surgiu após investidores identificarem excedentes de milho em Mato Grosso que tinham baixo valor nas regiões produtoras por causa do frete até o litoral.

A Unem projeta 16,63 bilhões de litros de etanol de milho na safra 2033/34. O crescimento dependerá da abertura de novos mercados, como navegação e aviação, além da expansão da capacidade industrial.

O porto de Santos informou que fará o abastecimento regular de navios com etanol após uma operação piloto em julho. Segundo a Autoridade Portuária, 159 embarcações já podem utilizar o biocombustível e outras 450 devem ser entregues até 2030.

O uso em larga escala ainda depende do custo de produção e das regras internacionais para reduzir emissões no transporte marítimo. Na aviação, o etanol pode ser usado na produção de combustível sustentável, mas o preço elevado em relação ao querosene convencional dificulta a expansão.

Em Paulínia (SP), a JetBio, ligada ao grupo controlador da FS, planeja uma unidade de combustíveis renováveis com investimento previsto de US$ 2 bilhões e capacidade de processar até 1,8 bilhão de litros por ano. A decisão sobre o projeto está prevista para 2027.

Jank alerta que a expansão pode ocorrer sem uma definição sobre a demanda dos novos mercados. A entrada no exterior também pode exigir maior controle sobre a origem do milho e sobre as emissões de toda a cadeia produtiva, incluindo mudanças no uso da terra.

O Ministério Público de Mato Grosso investiga a possível derrubada de mata para abastecer caldeiras de usinas. A Associação dos Reflorestadores de Mato Grosso afirma que mais da metade da lenha consumida pelo setor vem de vegetação nativa, vendida por até metade do preço do eucalipto plantado.

Relatório do Itaú BBA estima que o setor poderá precisar de cerca de 440 mil hectares de eucalipto plantado até o fim de 2026. A área pode quase dobrar até 2030 se a indústria depender exclusivamente dessa biomassa; em Mato Grosso, os investimentos necessários são estimados em R$ 7,6 bilhões.

Fonte: O Globo

Leia também