A diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Ngozi Okonjo-Iweala, afirmou em entrevista a jornalistas, em Genebra, que o avanço dos investimentos em data centers para inteligência artificial (IA) está impulsionando o comércio global, mas também ocultando problemas do sistema multilateral.
A OMC elevou de 1,9% para 3,9% a previsão de crescimento do comércio mundial de mercadorias em 2026. Para 2027, a estimativa passou de 2,6% para 4,1%, segundo o relatório Perspectivas e Estatísticas do Comércio Global, divulgado em 8 de outubro.
Componentes usados em data centers, como servidores, semicondutores e placas de memória, contribuíram para o avanço de 3,5% nas trocas de mercadorias no primeiro semestre. De acordo com o relatório, esses produtos responderam por 47% do crescimento do comércio global no período, com alta de 67% em relação ao mesmo intervalo do ano anterior.
Segundo Okonjo-Iweala, o desempenho do setor de IA tem mascarado efeitos de tarifas, conflitos no Mar Negro e problemas relacionados ao comércio de petróleo no Estreito de Ormuz. A diretora-geral afirmou que as exportações e importações de petróleo não caíram tanto no total mundial porque fornecedores de fora do Oriente Médio, como o Brasil, ampliaram suas vendas.
Ela também alertou para a concentração do comércio de produtos ligados à IA em poucos fornecedores e compradores. América do Norte, especialmente os Estados Unidos, e Leste da Ásia concentram a maior parte dos benefícios, segundo a dirigente.
Para Okonjo-Iweala, os principais desafios são tornar esse comércio mais inclusivo e avaliar se o ritmo atual de investimentos em data centers e infraestrutura de IA será sustentável ao longo do tempo.
A OMC enfrenta ainda a paralisação de seu Órgão de Apelação, responsável por julgar disputas comerciais entre os membros. Os Estados Unidos bloqueiam desde o primeiro governo de Donald Trump a indicação de novos juízes para a instância.
Um estudo citado no relatório anual da organização estima que a economia global poderá chegar a 2050 com um Produto Interno Bruto agregado 6,9% abaixo do nível projetado caso prevaleçam apenas acordos comerciais bilaterais.
Fonte: O Globo