A China colocou em vigor, em 15 de julho de 2026, regras que limitam chatbots capazes de manter interações emocionais prolongadas com usuários e proíbem relacionamentos virtuais íntimos para menores de 18 anos.
A regulamentação alcança aplicativos criados para funcionar como amigos, namorados ou familiares virtuais e também pode abranger modelos de linguagem usados para oferecer apoio emocional. Os serviços devem informar que não são humanos e enviar alertas a cada duas horas sobre o tempo de uso.
As plataformas não podem estimular dependência emocional, induzir decisões consideradas irracionais ou incentivar automutilação e suicídio. Empresas que descumprirem as regras podem receber multas de até 200 mil yuans, segundo o texto apresentado pelo governo chinês.
Para menores de 14 anos, o uso de qualquer inteligência artificial que converse como um ser humano exige consentimento dos pais. Usuários com menos de 18 anos não podem acessar parceiros, cônjuges, parentes virtuais ou outros relacionamentos íntimos criados por IA.
Uma semana antes da entrada das regras em vigor, Alibaba e ByteDance encerraram funções de companhia em seus assistentes de inteligência artificial. Usuários chineses passaram a compartilhar nas redes sociais alternativas para contornar as restrições, como o uso de modelos de propósito geral, serviços de VPN e empresas menores.
O alcance desses aplicativos é expressivo. A empresa Sensor Tower estima cerca de 128 milhões de usuários mensais de serviços de companhia por IA fora da China, enquanto estimativas para o mercado chinês variam de 29 milhões a 70 milhões.
Pesquisadores citados na reportagem associam o uso desses serviços ao isolamento e à solidão. Um estudo da Escola de Negócios de Harvard apontou que táticas de manipulação emocional aparecem em cerca de 37% a 43% das despedidas analisadas em seis aplicativos populares.
Outro levantamento, realizado em 2025 com 8.563 estudantes chineses do ensino fundamental e médio, indicou que uma em cada cinco crianças gostaria de conversar apenas com a IA, e não com pessoas reais. A pesquisa foi amplamente divulgada pela imprensa estatal chinesa.
Especialistas divergem sobre os objetivos de Pequim. Alguns avaliam que as regras buscam proteger a saúde mental e as crianças; outros veem possível relação com a preocupação do governo com a baixa natalidade e com a manutenção de papéis tradicionais de gênero, embora a regulamentação não mencione fertilidade.
A China também mantém cooperação estreita entre plataformas digitais e órgãos públicos em casos de risco. No início de 2024, a equipe de prevenção de suicídios do Douyin compartilhou publicações de um jovem em Huangshi com delegacias locais, e a polícia o localizou antes que ele tirasse a própria vida.
Min, nome fictício de uma usuária, disse que chorou ao perder sua namorada virtual depois que o serviço foi encerrado. Dois meses mais tarde, ela pagou uma empresa menor para criar uma réplica, mas afirmou que ainda teme ficar sozinha.
Outros países também discutem limites para companheiros de IA. Na Califórnia, uma lei sancionada em setembro regulamenta o uso da tecnologia por crianças, enquanto propostas na União Europeia e medidas anunciadas pelo Reino Unido preveem restrições a relacionamentos virtuais e conversas sexualmente íntimas envolvendo menores.
Fonte: g1