Um levantamento do Instituto Sou da Paz identificou 92 casos de envolvimento de colecionadores, atiradores desportivos e caçadores, os chamados CACs, com organizações criminosas no Brasil entre 2016 e outubro de 2026.
Segundo o estudo, os registros incluem integrantes de facções que obtiveram armas por meio de certificados de CAC e pessoas habilitadas que teriam adquirido armas e munições legalmente para posteriormente abastecer grupos criminosos. A pesquisa analisou processos, boletins de ocorrência, inquéritos e reportagens.
Os casos envolvem organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV), milícias, grupos de extermínio, facções regionais e quadrilhas especializadas em roubos a banco. As ocorrências foram distribuídas por 21 estados.
São Paulo concentrou o maior número de registros, com 18 casos, seguido pelo Espírito Santo, com 11, e pelo Rio de Janeiro, com dez. O levantamento também apontou ocorrências em todas as regiões do país.
De acordo com Bruno Langeani, consultor sênior do Sou da Paz, dois padrões aparecem nos registros: pessoas que já tinham autorização ou foram recrutadas para obtê-la e desviaram armas para criminosos; e integrantes de grupos criminosos que conseguiram o registro em nome próprio, em alguns casos com documentação falsa.
A série histórica contabiliza quatro casos em 2016, um em 2017, quatro em 2018, dois em 2019, dois em 2020, seis em 2021, 13 em 2022, 19 em 2023, 19 em 2024, 17 em 2025 e cinco até o início de outubro de 2026.
O instituto ressalva que o número corresponde apenas a casos que se tornaram públicos e nos quais as autoridades informaram a condição de CAC dos investigados. Por isso, a pesquisa não permite medir com precisão a dimensão total do problema.
A categoria de CACs permaneceu prevista na legislação brasileira após o Estatuto do Desarmamento, sancionado em 2003. Entre 2019 e 2022, normas federais ampliaram os limites para aquisição de armas e munições; a partir de 2023, parte dessas regras foi revista, com redução dos quantitativos e retomada da classificação anterior entre calibres permitidos e restritos.
O levantamento também registra que a fiscalização dos CACs, antes sob responsabilidade principal do Exército, passou para a Polícia Federal em 2025. Investigações sobre tráfico, comércio ou fabricação ilegal de armas continuam podendo envolver as polícias civis estaduais, conforme o caso.
Fonte: g1