Thiago Navarro, personagem musical criado com inteligência artificial, alcançou 1,5 milhão de ouvintes mensais no Spotify e viralizou com a música "Bonito, bonito", lançada em 3 de agosto de 2026. O projeto, desenvolvido pelo compositor cubano Anier Cruz Revilla, levantou discussões sobre autoria, transparência e os limites da tecnologia na indústria musical.
Navarro não existe fisicamente. A voz, as melodias e a imagem do cantor foram produzidas com ferramentas de inteligência artificial, enquanto Cruz escreveu a letra e coordenou o processo criativo.
O Spotify identifica o artista como "Pessoa IA", e o YouTube classifica o vídeo como "Criado com IA". Em 23 de setembro, o clipe oficial de "Bonito, bonito" já havia ultrapassado 8 milhões de visualizações, enquanto o vídeo com a letra chegou ao 10º lugar no YouTube Trends da Espanha e ao 49º no Peru.
A música também inspirou uma coreografia e foi compartilhada pelo cantor Carlos Baute. Neste mês, o projeto ganhou uma versão do duo Río Roma, após Cruz se reunir com integrantes do grupo em Miami.
Para o produtor musical, arranjador e professor Manuel Garrido-Lecca, a inteligência artificial depende da participação humana para gerar uma obra. Segundo ele, uma melodia simples pode servir de base para que o sistema desenvolva uma música completa.
Thiago Navarro integra uma trajetória de artistas virtuais que inclui Kyoko Date, lançada no Japão em 1996, Hatsune Miku e Lil Miquela. A diferença atual, segundo a reportagem, é que ferramentas generativas permitem produzir simultaneamente a voz, a música e a imagem de um artista.
Outros projetos recentes também alcançaram o público. A banda The Velvet Sundown, a cantora de R&B Xania Monet e a artista de soul e blues em espanhol Nyla Stone foram associados a produções feitas com inteligência artificial e registraram crescimento nas plataformas digitais.
A Deezer recebe cerca de 90 mil músicas totalmente geradas por IA por dia, segundo dados da própria plataforma. O serviço prepara um filtro para permitir que usuários ocultem esse tipo de faixa das buscas até o fim de 2026.
O uso da tecnologia também gerou críticas e alegações de semelhanças com outras obras no caso de "Bonito, bonito". Cruz defendeu o projeto e afirmou que a indústria já enfrentou reações semelhantes durante a adoção de recursos como o Auto-Tune.
O Grammy Latino permite obras que utilizem inteligência artificial quando houver contribuição humana significativa e verificável, mas exclui trabalhos sem autoria humana substancial. Cruz afirma que pretende continuar o projeto e não descarta criar um holograma de Thiago Navarro para apresentações.
Fonte: O Globo