O cantor digital Thiago Navarro, criado com inteligência artificial pelo compositor cubano Anier Cruz Revilla, alcançou 1,5 milhão de ouvintes mensais e viralizou com a música "Bonito, bonito". O projeto foi lançado em agosto e passou a ser identificado como conteúdo gerado por IA nas plataformas digitais.
Revilla escreveu a letra, testou sons e arranjos e utilizou ferramentas de inteligência artificial para gerar a voz, as melodias e a imagem do artista. O Spotify classifica Navarro como "Pessoa IA", enquanto o YouTube informa que o vídeo foi criado com inteligência artificial.
Lançada em 3 de agosto, "Bonito, bonito" integrava um EP de mesmo nome. Em 23 de setembro, o vídeo oficial já havia superado 8 milhões de visualizações, e a versão com letra alcançou posições entre as mais populares do YouTube na Espanha e no Peru.
A música também inspirou uma coreografia e foi compartilhada pelo cantor Carlos Baute. Neste mês, a dupla Río Roma entrou no projeto com uma nova versão da faixa, após um encontro entre Revilla e José Luis Ortega em Miami.
Para o produtor musical, arranjador e professor Manuel Garrido-Lecca, a inteligência artificial depende de uma ação humana para receber dados e direcionamento. Segundo ele, a tecnologia pode desenvolver uma melodia simples, mas a criação ainda parte de decisões tomadas por uma pessoa.
Artistas virtuais e projetos musicais feitos com apoio de tecnologia já existem há décadas. Entre os exemplos estão Kyoko Date, criada no Japão em 1996, Hatsune Miku, que se tornou conhecida mundialmente a partir de 2007, e Lil Miquela, personagem digital que também lançou músicas.
Nos últimos anos, ferramentas generativas passaram a permitir a criação integrada de voz, música e imagem. Projetos como The Velvet Sundown, Xania Monet e Nyla Stone alcançaram públicos expressivos em plataformas digitais, embora os responsáveis humanos estejam associados à composição, à produção ou à direção artística.
A Deezer informou que recebe cerca de 90 mil músicas totalmente geradas por inteligência artificial por dia. A plataforma também prepara um filtro para que usuários ocultem esse tipo de conteúdo das buscas antes do fim de 2026.
O uso da tecnologia provoca debates sobre autoria, direitos autorais e os limites da participação humana. O Grammy Latino aceita obras com inteligência artificial quando há contribuição humana significativa e verificável, mas exclui produções sem autoria humana substancial.
Revilla afirmou que pretende continuar o projeto de Thiago Navarro e não descarta criar um holograma do personagem para apresentações em diferentes países. A música também recebeu críticas e acusações de supostas semelhanças com outras obras, contestadas pelo compositor.
Fonte: O Globo