Um acampamento instalado na Puerta del Sol, no centro de Madri, completa um mês nesta sexta-feira (23) em protesto contra a crise habitacional na Espanha. Os manifestantes montaram barracas, refeitório, biblioteca, enfermaria e espaços para assembleias e prometem permanecer no local até obter mudanças nas políticas de moradia ou serem retirados à força.
A ocupação começou em 26 de setembro e ganhou força após o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, do apartamento onde vivia havia sete décadas. Ela morreu pouco depois, e sua memória é homenageada em um altar com velas e flores no acampamento.
Marcos Navarro, de 22 anos, afirma que a mobilização contribuiu para a antecipação das eleições gerais, marcadas para 29 de novembro. A decisão foi tomada pelo presidente do governo, Pedro Sánchez, após dificuldades para aprovar no Congresso um pacote de medidas voltado à ampliação do acesso à moradia.
A estrutura instalada na praça inclui uma enfermaria organizada por voluntários da área da saúde. Orlando Santander, técnico de saúde de 42 anos, disse que a equipe oferece principalmente primeiros socorros e que médicos da região disponibilizaram consultórios para casos que não podem ser tratados no local.
O governo de Sánchez descartou desocupar o acampamento. A ocupação é criticada pelo prefeito de Madri, José Luis Martínez-Almeida, e pela presidente da região, Isabel Díaz Ayuso, que tentou obter judicialmente a desocupação da praça sem sucesso e determinou o fechamento temporário da estação de metrô sob as barracas, alegando falta de higiene.
A mobilização também divide os comerciantes da região. Pedro Mora, dono de uma loja de artigos de couro, afirma ter perdido um terço do faturamento, enquanto a livraria feminista Mujeres oferece aos manifestantes banheiro, espaço para carregar celulares, guardar pertences e descansar.
Os ocupantes relatam dificuldades como a falta de banheiros e o desconforto de dormir no chão. Eles justificam a permanência pelo alto custo da moradia: segundo os dados apresentados na reportagem, o aluguel médio de um apartamento de 50 metros quadrados em Madri é de cerca de 1.170 euros mensais, quase metade do salário bruto médio.
Os manifestantes afirmam que pretendem continuar na Puerta del Sol independentemente do governo que assumir após as eleições. Ayla Herrero, antropóloga de 26 anos, disse acreditar que o movimento espanhol inspirou protestos sociais em outros países europeus.
Fonte: O Globo