O deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo candidato mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio nas eleições de 2026, foi preso preventivamente pela Polícia Federal nesta quinta-feira (15), durante a oitava fase da Operação Unha e Carne.
Segundo a PF, Canella seria o articulador político de uma organização criminosa que utilizava postos de combustíveis para movimentar e ocultar recursos. A investigação aponta que ele faria a ligação entre agentes públicos, empresários e operadores da rede, além de influenciar nomeações e contratações.
A prisão foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Também foram presos o ex-chefe da Polícia Civil do Rio Marcus Amim e quatro inspetores da corporação.
De acordo com a representação da PF, anotações apreendidas na casa do inspetor José Carlos Alves de Souza Júnior registravam repasses destinados a pessoas identificadas como “Canela”, “JR” e “PR”. Os investigadores associam os codinomes, respectivamente, a Márcio Canella, José Carlos Júnior e Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo.
Os documentos mencionariam valores de R$ 51 mil, R$ 31 mil e R$ 57 mil atribuídos a Canella, este último registrado sob o codinome “Amigo”. Para a PF, as anotações indicam pagamentos feitos pelo núcleo econômico do grupo, embora a investigação ainda apure a origem e a finalidade dos recursos.
A análise financeira citada no caso identificou cerca de R$ 2,59 milhões em créditos nas contas de Canella entre maio de 2025 e abril de 2026. Desse total, aproximadamente R$ 1,4 milhão teria vindo da Brumar Empreendimentos e Participações, empresa da qual o político era sócio; os investigadores afirmam que não conseguiram identificar a origem primária de parte do dinheiro.
A PF também sustenta que Canella articulou a indicação de Marcus Amim para a presidência do Detran-RJ e, depois, para a Secretaria de Polícia Civil. Os investigadores afirmam ainda que ele participou de uma mudança legislativa na Assembleia Legislativa do Rio para alterar o requisito de tempo de carreira exigido para o comando da Polícia Civil.
O relatório menciona possíveis relações políticas com milicianos e com integrantes do Comando Vermelho. Entre os elementos citados está a nomeação da mulher de Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura e apontado pela PF como liderança do grupo “Somos Comunidade”, para um cargo no gabinete parlamentar de Canella.
A investigação também cita áudios sobre uma negociação entre um capitão da Polícia Militar e chefes do Comando Vermelho para a retirada de barricadas em Belford Roxo durante obras públicas. O material, porém, não registra uma conversa direta de Canella com os líderes criminosos, segundo a própria descrição da PF.
Os postos de combustíveis investigados são apontados como instrumentos para misturar receitas legais e recursos de origem suspeita, aproveitando o alto volume de operações em dinheiro vivo do setor. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações de R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026 na rede de pessoas e empresas analisadas, valor que não corresponde, por si só, ao montante comprovadamente lavado.
Canella já havia sido preso em flagrante em julho, após a PF encontrar um fuzil em seu veículo durante a sexta fase da operação. Moraes determinou a soltura do político três dias depois, e as medidas cautelares foram revogadas em 23 de julho. A defesa informou que não se manifestará até ter acesso aos autos.
Fonte: g1