O deputado estadual Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e segundo candidato mais votado para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro nas eleições deste ano, foi preso preventivamente pela Polícia Federal nesta quinta-feira (15), durante a oitava fase da Operação Unha e Carne.
A prisão foi determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Também foram presos o ex-chefe da Polícia Civil do Rio Marcus Amim e quatro inspetores da corporação.
Segundo a PF e a Procuradoria-Geral da República, Canella atuaria como articulador político de uma organização criminosa que usaria postos de combustíveis para lavar dinheiro. Os investigadores apontam que ele faria a ligação entre agentes públicos, empresários e operadores do grupo, além de influenciar nomeações e contratações.
A investigação cita anotações apreendidas na casa do inspetor José Carlos Alves de Souza Júnior. Nos registros, aparecem valores destinados a pessoas identificadas como Canela, JR e Amigo. A PF atribui os codinomes, respectivamente, a Márcio Canella, José Carlos Júnior e ao policial Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo.
Os documentos mencionam repasses de R$ 51 mil, R$ 31 mil e R$ 57 mil atribuídos a Canella. De acordo com os investigadores, os registros estavam relacionados aos postos Jardim Uba e Auto Posto LP Francis e indicariam pagamentos sem lastro contratual aparente.
A análise financeira citada pela PF identificou cerca de R$ 2,59 milhões em créditos nas contas de Canella entre maio de 2025 e abril de 2026. Desse total, R$ 1,4 milhão teria sido transferido pela Brumar Empreendimentos e Participações, empresa da qual o político era sócio.
A PF também sustenta que Canella articulou a indicação de Marcus Amim para a presidência do Detran-RJ e, depois, para a Secretaria de Polícia Civil. A representação afirma ainda que ele teria apoiado uma alteração legislativa na Assembleia Legislativa para flexibilizar o requisito de tempo de carreira necessário para ocupar o comando da Polícia Civil.
Amim é apontado pelos investigadores como responsável pela proteção institucional do esquema. A PF relata pagamentos de R$ 1,821 milhão de uma empresa investigada para uma consultoria ligada ao delegado e à mulher dele, além de um adiantamento de R$ 1,62 milhão para a compra de uma casa em Camboinhas, em Niterói.
A representação também menciona possíveis conexões com milícias e com o Comando Vermelho. Segundo a PF, um capitão da Polícia Militar teria intermediado interesses da administração de Canella em Belford Roxo junto a chefes da facção durante uma negociação sobre barricadas e obras públicas. O documento não afirma que Canella tenha conversado diretamente com os líderes criminosos.
Em relação às milícias, a investigação cita a nomeação da mulher de Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura e apontado como liderança do grupo Somos Comunidade, para um cargo de assessoria no gabinete parlamentar de Canella. A PF também menciona a nomeação de ex-vereadores investigados por vínculos com milicianos para funções na administração municipal.
O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou movimentações de R$ 7,6 bilhões entre 2020 e 2026 na rede de pessoas e empresas analisadas. O valor corresponde ao total das transações identificadas e não representa, por si só, dinheiro comprovadamente lavado.
Canella já havia sido preso em julho, após a PF encontrar um fuzil em seu veículo durante a sexta fase da operação. Ele foi solto por determinação de Moraes em 10 de julho, e as medidas cautelares impostas na ocasião foram revogadas em 23 de julho.
A defesa de Canella informou que não se manifestará até ter acesso aos autos. A defesa de Marcus Amim adotou a mesma posição.
Fonte: g1