Um grupo investigado por suspeita de lavagem de dinheiro em uma rede de postos de combustíveis no Rio de Janeiro recebia antecipadamente informações sobre fiscalizações do Procon e de outros órgãos, segundo a Polícia Federal. Os dados incluíam estabelecimentos, datas, horários e até o veículo usado pelas equipes.
As informações teriam sido repassadas ao policial civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, por meio do advogado Diogo Pacheco do Couto. A PF afirma que servidores ligados a órgãos de defesa do consumidor forneciam os dados ao advogado.
Os detalhes constam da representação que embasou a oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada em 15 de outubro. A ação levou à prisão do deputado estadual eleito Márcio Canella, do União Brasil, do delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil, de Pablo Russo, José Carlos Alves de Souza Júnior e dos policiais civis Christiano e Giovanni Gaspar Fernandes.
De acordo com a investigação, Canella seria o articulador político do grupo, enquanto Amim teria atuado para garantir proteção institucional às atividades investigadas. Pablo e José Carlos são apontados como gestores de fato da rede de postos, embora parte das empresas estivesse formalmente registrada em nome das mulheres dos dois.
A análise do celular de Pablo identificou, segundo a PF, repasses realizados entre abril e maio de 2026. Em um dos episódios, o grupo teria recebido o horário exato de início de uma fiscalização em São Gonçalo: 9h30.
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, afirmou na decisão que as informações compartilhadas não eram dados públicos, mas cronogramas, alvos e horários precisos de operações. Para a PF, a antecipação poderia dificultar a identificação de irregularidades, ocultar provas e reduzir os efeitos das inspeções.
Uma das fiscalizações mencionadas verificava se o volume de combustível entregue pelas bombas correspondia à quantidade registrada. A investigação também apura suspeitas de corrupção, formação de cartel e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis.
A PF informou que cumpriu seis mandados de prisão e 16 de busca e apreensão. Um relatório de inteligência financeira citado pela Procuradoria-Geral da República reúne 2.171 comunicações de operações suspeitas, envolvendo 835 pessoas físicas e jurídicas, com movimentação estimada em R$ 7,64 bilhões entre maio de 2020 e março de 2026; o valor não representa, por si só, quantia comprovadamente lavada.
A defesa de Marcus Amim informou que não se manifestará antes de ter acesso aos autos. A defesa de Márcio Canella disse que não comentaria o caso naquele momento porque ainda não havia recebido a decisão que determinou a prisão. As demais defesas não haviam sido localizadas, segundo a reportagem.
Fonte: g1