A música sertaneja se tornou o gênero mais ouvido do Brasil ao longo de quase um século de transformações, segundo levantamento da Pró-Música Brasil baseado nas reproduções em plataformas de streaming. Atualmente, a canção sertaneja Eu Te Seguro, de Panda, aparece no topo do ranking nacional.
O gênero, porém, está distante da música caipira que chegou ao mercado fonográfico em 1929, com a gravação de Jorginho do Sertão, por Mariano e Caçula. Desde então, incorporou influências do rádio, da guarânia paraguaia, da ranchera mexicana, da Jovem Guarda, do pop, do funk e da música eletrônica.
Para pesquisadores ouvidos pela reportagem, a trajetória do sertanejo acompanha mudanças na sociedade brasileira, como o êxodo rural, a urbanização e o crescimento econômico de cidades pequenas e médias. As letras passaram de narrativas sobre o trabalho no campo e causos locais para histórias de saudade, romances, festas, consumo e ostentação.
O historiador Gustavo Alonso define essa evolução como um processo de antropofagia cultural, no qual o gênero incorpora elementos de diferentes origens. A pesquisadora Gisele Jordão afirma que a transformação acompanhou o deslocamento do público rural para os centros urbanos e a mudança de suas referências culturais.
O violeiro e professor da Universidade de São Paulo Ivan Vilela divide a história do sertanejo em cinco grandes fases. A primeira começou com as gravações pioneiras e a expansão pelo rádio; a segunda foi marcada pelo sucesso de Tonico & Tinoco e pela nostalgia do campo entre migrantes que já viviam nas cidades.
A partir dos anos 1960, duplas como Léo Canhoto & Robertinho aproximaram a música caipira da Jovem Guarda, com guitarras elétricas e maior ênfase nas canções românticas. Nos anos 1980, o chamado sertanejo romântico ganhou espaço na grande mídia com nomes como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel e Rick & Renner.
Na virada do século, o sertanejo universitário aproximou o gênero do pop, do rock e do axé, com temáticas voltadas ao público jovem urbano. Depois, movimentos como o feminejo ampliaram a presença de mulheres entre os artistas de maior audiência, enquanto o agronejo passou a associar a música à cultura do agronegócio e a incorporar batidas eletrônicas, elementos do funk e narrativas de ostentação.
A morte de Rick, nome artístico de Geraldo Antônio de Carvalho, em um acidente de helicóptero na Serra Catarinense, em 21 de setembro de 2026, também aparece como referência recente na trajetória do gênero. Os destroços da aeronave foram encontrados no dia seguinte, com cinco mortos, segundo o Corpo de Bombeiros de Santa Catarina.
Apesar das mudanças, a tradição das duplas e das canções que contam histórias continua presente no imaginário do sertanejo. Para os especialistas, o gênero mantém sua força justamente por funcionar como um amplo guarda-chuva musical, capaz de absorver novas sonoridades e retratar diferentes momentos do país.
Fonte: g1