A música sertaneja voltou ao topo dos rankings de streaming no Brasil em 2026, com “Eu Te Seguro (Ao Vivo)”, de Panda, na primeira posição do levantamento da Pró-Música Brasil referente ao primeiro semestre. O resultado resume uma trajetória de quase cem anos, marcada pela passagem da música caipira rural para o sertanejo romântico, universitário e o agronejo.
O ranking reúne reproduções de plataformas como Spotify, YouTube, Deezer, Apple Music, Amazon Music e Napster. Divulgado em julho, o levantamento apontou que 96% das 50 faixas mais ouvidas eram nacionais e confirmou a força do sertanejo entre os gêneros mais consumidos no país.
A história comercial do estilo costuma ter como marco a gravação de “Jorginho do Sertão”, em 1929, por Mariano e Caçula. A música foi composta a partir de fragmentos de narrativas populares por Cornélio Pires, que financiou a gravação e a prensagem do disco depois de não encontrar uma gravadora disposta a apostar no segmento.
Na primeira fase, a música caipira registrava rotinas do trabalho agrícola, costumes locais e histórias do interior. Com a expansão do rádio e a migração de trabalhadores para as cidades, o repertório passou a funcionar também como referência afetiva para quem deixava o campo.
Nas décadas seguintes, duplas como Tonico & Tinoco ampliaram o alcance do gênero. A vida rural passou a ser apresentada com elementos de nostalgia, enquanto a formação em dupla, o uso da viola e os cantos em terça se consolidaram como marcas associadas ao sertanejo.
A partir dos anos 1950, o gênero incorporou influências da guarânia paraguaia e da ranchera mexicana. Nos anos 1960, artistas como Léo Canhoto & Robertinho aproximaram a música caipira da Jovem Guarda, com guitarras elétricas, sonoridades estrangeiras e maior presença de temas amorosos.
A transformação mais ampla ocorreu nos anos 1980, quando o sertanejo romântico ganhou espaço na grande mídia com duplas como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Zezé Di Camargo & Luciano, João Paulo & Daniel e, posteriormente, Rick & Renner. Rick Sollo morreu em setembro de 2026 após a queda de um helicóptero na Serra Catarinense; os destroços foram localizados em 22 de setembro, e o Cenipa investiga as causas do acidente.
Na virada do século, o sertanejo universitário aproximou o gênero do pop, do rock, do axé e de outras tendências internacionais. A temática também se deslocou para relações amorosas, festas, bebidas e experiências de jovens das cidades médias e pequenas.
O feminejo ampliou a presença de mulheres no segmento, com nomes como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria, Naiara Azevedo e Paula Fernandes. Mais recentemente, o agronejo incorporou batidas eletrônicas, elementos do funk, ostentação e referências ao agronegócio, movimento que também gerou críticas de pesquisadores sobre a associação entre música, identidade rural e interesses econômicos.
Para especialistas ouvidos pela reportagem original, a permanência do sertanejo está ligada à capacidade de absorver influências de outros gêneros e acompanhar mudanças sociais. O estilo deixou de retratar apenas o campo tradicional e passou a refletir a urbanização, o crescimento das cidades médias e a transformação do mundo rural em uma economia marcada pelo agronegócio.
Fonte: g1