O Banco Master repassou R$ 1,44 bilhão em créditos de precatórios à Entre Investimentos entre 7 e 9 de outubro de 2025, cerca de um mês antes de o Banco Central determinar a liquidação da instituição. A empresa era controlada por Antônio Carlos Freixo Júnior, que firmou acordo de colaboração premiada em setembro de 2026.
Segundo documentos apresentados à Justiça, a Entre se comprometeu a pagar R$ 1,28 bilhão pelos direitos, com desconto de 10,8%. Em ação protocolada em setembro de 2026, a liquidante do Master afirmou que não encontrou, até o momento, comprovação de que os pagamentos foram feitos ao banco nem identificou a origem dos recursos ou ativos eventualmente entregues em troca.
A liquidante não apontou fraude na negociação, mas sustentou que a operação pode ter integrado um mecanismo de circulação e ocultação patrimonial em benefício de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master. A ação busca impedir que a Entre transfira ou dê outra destinação aos ativos enquanto as operações são investigadas.
Os seis contratos envolvem créditos reivindicados por companhias sucroalcooleiras contra a União, relacionados ao antigo controle de preços exercido pelo extinto Instituto do Açúcar e do Álcool. Os precatórios estão associados à Açucareira Central Sumaúma, Usina Catende, Usina São João, Açucareira Paraíso, Usina Outeiro e Agrícola Baixa Grande.
O Master contratou os escritórios das advogadas Camilla Ramos e Dalide Corrêa para atuar em processos sobre os créditos. As ações tramitam na Justiça Federal do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, e a carteira transferida à Entre inclui processos relacionados à Usina Catende, que representa quase dois terços do valor total.
Mensagens analisadas pela Polícia Federal mencionam uma suposta “turma do KN”, expressão interpretada pelos investigadores como referência ao ministro Kassio Nunes Marques e à advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Nunes Marques negou ter atuado em favor de Vorcaro ou do Master e afirmou que seu voto tratou de uma tese aplicável a diversas empresas.
O escritório de Camilla Ramos disse ter contrato com o Master há quase três anos, para processos específicos, e afirmou que não recebeu pagamentos de pró-labore ou de êxito. A banca também negou que os casos sob sua responsabilidade tramitem no Supremo Tribunal Federal ou tenham vínculo com ministros da Corte.
Dalide Corrêa atuou em processo envolvendo a Usina Catende nas instâncias inferiores, segundo seu escritório, que negou contato com ministros do Supremo para tratar do caso. O ministro Gilmar Mendes afirmou que a advogada nunca foi sócia do Instituto Brasileiro de Direito Público, do qual foi diretora-geral, e negou ter tratado com ela de processos sobre precatórios do setor sucroalcooleiro.
Em setembro de 2026, Freixo Júnior firmou acordo de colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República, posteriormente homologado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. Segundo informações divulgadas pelo GLOBO, ele relatou pagamentos feitos a pedido de Vorcaro e movimentações de recursos relacionadas ao filme “Dark Horse”.
Fonte: O Globo