Há exatos 100 anos, em maio de 1926, a Ford quebrou o padrão da época ao instituir a jornada de trabalho de 40 horas semanais em suas fábricas nos Estados Unidos. A decisão pioneira não apenas atendeu a uma antiga reivindicação dos trabalhadores, mas também consolidou o modelo de cinco dias de trabalho por dois de descanso, que viria a definir o capitalismo industrial como "fordista".
Até então, a semana de trabalho comum nos EUA girava em torno de 60 horas, com seis dias de labor. A iniciativa da Ford visava atrair mão de obra qualificada, aumentar a produtividade com funcionários mais descansados e estimular a economia através do lazer e do consumo. A mudança, contudo, não ocorreu isoladamente. Desde o fim da Guerra Civil americana, um forte movimento sindical lutava pela redução da jornada, com o lema "oito horas para o trabalho, oito horas para o descanso, oito horas para o que quisermos".
A consolidação legal das 40 horas semanais nos EUA só aconteceria em 1940, com a alteração da Lei de Normas Justas de Trabalho. A legislação estabeleceu o limite de 40 horas, com pagamento de horas extras a partir de 50% sobre o valor da hora normal. A decisão da Ford, no entanto, foi crucial para impulsionar a adoção da semana de cinco dias por outras grandes empresas. Em 1927, pelo menos 262 companhias já haviam seguido o modelo, contra apenas 32 em 1920. Henry Ford, apesar de sua aversão a sindicatos, empregava mais da metade dos trabalhadores que já operavam com a semana de cinco dias.
O movimento sindical teve um papel fundamental nessa conquista. A luta pela redução da jornada foi um dos pilares para a fundação do primeiro sindicato nacional na década de 1860 e da Federação Americana do Trabalho nos anos 1880. A redução da jornada também se tornou um fator estratégico para empresas em um contexto de acirrada busca por mão de obra, devido à diminuição da imigração europeia.
No Brasil, o debate sobre a jornada de trabalho também avança. Atualmente, o governo e a Câmara dos Deputados discutem o fim da escala 6x1 e a redução da jornada para 40 horas semanais, ecoando a mudança implementada pela Ford há um século.