A oferta de parcelamento de compras em supermercados, farmácias e postos de gasolina se tornou uma estratégia comum que eleva o endividamento das famílias brasileiras. Sociólogos e economistas alertam que o uso do crédito para despesas mensais básicas desorganiza o orçamento e transforma o financiamento em complemento de renda, quando deveria ser destinado a bens duráveis.
A economista Katherine Hennings, da FGV, aponta que o fácil acesso ao crédito agrava a "ansiedade de consumo". Estímulos de propaganda e influenciadores digitais levam as pessoas a anteciparem compras sem analisar a capacidade de pagamento. Essa falta de planejamento financeiro resulta em dívidas com juros altos, como cheque especial e rotativo do cartão de crédito.
Especialistas ressaltam que o consumidor compara preços de produtos, mas negligencia a análise dos custos de financiamento. O economista Fabio Bentes, da CNC, enfatiza a necessidade de verificar o valor total a ser pago com juros antes de parcelar uma compra.
A economista Isabela Tavares, da Consultoria Tendências, alerta que o limite do cartão de crédito não é renda extra. Ela esclarece que o valor a ser pago deve ser coberto pelo salário mensal, e não somado à renda para justificar gastos maiores.
Diante desse cenário, educadores financeiros defendem a ampliação da educação financeira para auxiliar nas decisões de consumo. O planejador Carlos Castro desenvolveu uma plataforma e materiais educativos para orientar a população sobre o uso consciente do crédito e programas de renegociação de dívidas.
Dados do Banco Central indicam que a inadimplência das famílias atingiu R$ 238,5 bilhões em março. A Serasa Experian revela que 81,7 milhões de brasileiros estão com dívidas em atraso, sendo a maioria com renda de até dois salários mínimos. Esses consumidores, com menor score de crédito, recorrem a empréstimos mais caros por não terem acesso a opções como o crédito consignado.
A diretora técnica do Dieese, Adriana Marcolino, conclui que o crédito fácil, especialmente com juros elevados, drena a renda do trabalhador para o sistema financeiro, agravando o problema do endividamento crônico.