O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, destacou a necessidade de a autoridade monetária permanecer "ainda mais vigilante" aos efeitos de "segunda ordem" de choques de oferta na inflação, como os decorrentes de conflitos geopolíticos, a exemplo da guerra no Oriente Médio, que impacta os preços do petróleo.
Esses efeitos secundários ocorrem quando a alta inicial de um produto se dissemina para outros bens e serviços, prolongando o impacto inflacionário e exigindo uma política monetária mais restritiva.
Galípolo ressaltou que a economia brasileira, com expectativas de inflação distantes da meta de 3,0% e um mercado de trabalho aquecido, está mais suscetível a esse repasse generalizado de preços.
"Separar o que é efetivamente um processo de choque de oferta [...] dos efeitos de segunda ordem [...] não é uma abordagem simples", admitiu Galípolo na abertura da Conferência Anual do BC, em Brasília. Ele assegurou, contudo, que o BC manterá seu compromisso com o controle da inflação.
O BC tem demonstrado cautela na condução da política de juros, considerando a incerteza sobre a duração do conflito no Oriente Médio e seus reflexos na inflação doméstica. A ata do último Copom, em abril, já indicava uma preocupação com a desaceleração econômica mais lenta que o esperado, um fator crucial para o controle inflacionário.
Galípolo também apontou que a sucessão de quatro choques de oferta em seis anos (pandemia, guerra na Ucrânia, tarifaço e conflito no Oriente Médio) questiona a credibilidade dos bancos centrais. Ele explicou que, embora os BCs foquem em metas de inflação, a população sente o aumento generalizado do custo de vida.
"Estamos passando pelo quarto choque de oferta em menos de seis anos. Choques de oferta colocam os BC diante de um desafio que é bem grande", afirmou, comparando a situação a um barco desenhado para "outro tipo de tempestade".