Atlético-MG e Botafogo, dois clubes que recentemente se tornaram Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), estão imersos em crises financeiras com dívidas que ultrapassam os R$ 2 bilhões. Ambos enfrentam dificuldades semelhantes fora de campo, apesar de estarem próximos na tabela do Campeonato Brasileiro.
Os balanços de 2025 revelam que o modelo de SAF em si não é o problema, mas sim a forma como foi implementado no futebol brasileiro. Após investimentos agressivos e conquistas importantes, como o título brasileiro e da Libertadores do Botafogo em 2024, os clubes agora lidam com o aumento do endividamento, problemas de fluxo de caixa e a necessidade de reorganização diante do avanço do fair play financeiro.
Cesar Grafietti, economista da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, aponta que a mentalidade do modelo associativo, de gastar primeiro e lidar com as dívidas depois, prejudicou a gestão de ambas as SAFs. Ele ressalta que o fair play financeiro atual impede o atraso de pagamentos, forçando uma nova abordagem.
A expectativa de que o aumento da competitividade geraria receitas suficientes para cobrir os altos investimentos não se sustentou no cenário brasileiro, segundo Grafietti. Ele compara a situação com a Europa, onde vagas na Champions League trazem retornos financeiros significativamente maiores.
No Botafogo, o crescimento da folha salarial e dos investimentos em contratações resultou em maior endividamento e dependência da venda de jogadores. A venda recente do zagueiro Alexander Barboza ao Palmeiras por R$ 18 milhões, divididos em quatro parcelas, foi necessária para cobrir os salários de maio.
O Atlético-MG, após aportes iniciais e reestruturação de passivos, continuou aumentando despesas e custos operacionais. O clube deve receber um aporte de R$ 500 milhões da Galo Holding para lidar com uma dívida bancária superior a meio bilhão de reais.
Especialistas, como o advogado de direito desportivo Cristiano Caús, rejeitam a ideia de que os problemas sejam culpa direta do modelo SAF, defendendo que a questão central é a gestão. Ele destaca que muitas SAFs brasileiras surgem sob pressão financeira, sem tempo para a construção de estruturas sólidas de compliance.
A implementação do fair play financeiro pela CBF visa a controlar atrasos salariais e dívidas, com sanções para clubes que não se adequarem, como o transfer ban aplicado ao Botafogo pela Fifa. Diferente das associações, as SAFs podem ir à falência, e mesmo com recursos como Recuperação Judicial, elas têm fins lucrativos, o que as exclui de medidas de auxílio governamental destinadas a clubes associativos.
Fonte: O Globo