O PSD anunciou, na semana passada, a filiação de seis dos oito deputados estaduais do PSDB em São Paulo. O movimento amplia o avanço do partido comandado por Gilberto Kassab sobre quadros tucanos no estado e provocou reação da direção nacional do PSDB.
Kassab também é secretário de Governo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). O PSDB, partido que nasceu e se consolidou politicamente em São Paulo, vem perdendo espaço desde que deixou o comando do Palácio dos Bandeirantes, em 2022, após 28 anos no poder estadual.
O esvaziamento também aparece na disputa municipal. Em 2024, o PSD elegeu 207 prefeitos em São Paulo, enquanto o PSDB ficou com 21. Quatro anos antes, os tucanos haviam vencido em 173 cidades, segundo dados citados na reportagem.
Levantamento de O GLOBO aponta que 45 dos 83 prefeitos e vice-prefeitos do PSDB que tentaram a reeleição em 2024 mudaram de partido e se filiaram ao PSD. A maioria está em municípios de médio e pequeno porte.
Depois do PSD, o Republicanos foi o partido que mais recebeu ex-tucanos, com 11 filiações, incluindo o prefeito de Santos, Rogério Santos. PL, União Brasil, PP e MDB ficaram com os demais. Apenas dez prefeitos e vice-prefeitos permaneceram no PSDB.
Com a nova rodada de saídas, o presidente nacional do PSDB, deputado Aécio Neves (MG), atacou Kassab. Em nota, disse que o dirigente do PSD atua como "fundos abutres da economia", por "atacar os ativos da empresa para depois comprar na baixa". "O PSDB não está à venda", escreveu.
Nos bastidores, tucanos atribuem as perdas a disputas internas e a uma crise de identidade após a queda do protagonismo nacional na polarização com o PT, agravada pela ascensão do bolsonarismo. Em 2022, o PSDB não lançou candidato próprio à Presidência e apoiou Simone Tebet (MDB), hoje ministra do governo Lula.
Outro ponto de preocupação envolve estrutura e financiamento. A reportagem cita que o PSDB ficou apenas na 10ª posição entre os beneficiários da verba pública eleitoral, distribuída conforme o tamanho das bancadas no Congresso. Uma derrota em outubro pode reduzir o acesso ao fundo partidário até 2030.
A debandada alcançou nomes de peso em antigas gestões municipais tucanas. Felício Ramuth, ex-prefeito de São José dos Campos, virou vice-governador de Tarcísio. Duarte Nogueira, de Ribeirão Preto, se filiou ao PSD. Orlando Morando, ex-prefeito de São Bernardo do Campo, pediu desfiliação e ocupa a Secretaria de Segurança Urbana na gestão de Ricardo Nunes (MDB), em São Paulo.
No PSDB paulista, um dos principais nomes que permaneceram é Paulo Serra, ex-prefeito de Santo André e atual presidente estadual do partido. Ele sinaliza intenção de disputar o governo de São Paulo e rejeita a tese de que o PSD tenha incorporado a identidade tucana. "Não se absorve um conceito, ainda mais sendo base de apoio do PT no plano nacional", disse.
O PSD comanda três ministérios no governo Lula e, desde 2011, cresceu até se tornar o partido com mais prefeituras no país. Em São Paulo, Kassab acumula o comando partidário com a Secretaria de Governo, responsável por convênios e parcerias com prefeituras. Adversários apontam que a posição favoreceria a aproximação com gestores municipais; Kassab nega troca de apoio por liberação de verbas.
A estratégia do PSD também inclui atrair políticos com mandato e projeção. Ainda segundo a reportagem, Kassab já levou para o partido, neste ano, os governadores Ronaldo Caiado (Goiás) e Marcos Rocha (Rondônia), ambos eleitos pelo União Brasil.
Fonte: O Globo