No coração do Recôncavo baiano, as artesãs da Associação Artesanal Chitarte estão promovendo uma revolução no mundo da moda ao ressignificar o tradicional tecido de chita. Essa fibra, frequentemente associada à vida doméstica e ao artesanato popular, ganha nova vida em uma coleção inspirada nas mulheres que moldaram a trajetória dessas profissionais: suas mães, avós e vizinhas. A coleção, intitulada “Das Marias”, será lançada no dia 13 de dezembro no Museu A Casa do Objeto Brasileiro, em São Paulo, e promete surpreender não apenas pela criatividade, mas também pela profunda conexão com a história e a ancestralidade.
O significado do tecido de chita na cultura brasileira
O tecido de chita, feito de algodão leve e caracterizado por suas estampas vibrantes, chegou ao Brasil durante o período colonial, conforme explica a mestra em Gestão de Políticas Públicas e artesã da Chitarte, Bárbara Nunes. Este material, inicialmente utilizado para vestes de negros e negras escravizados, se popularizou e, com isso, parte de sua história foi esquecida. “Ao popularizar, a história se perde. Estamos fazendo uma releitura do tecido, ressaltando o protagonismo e a importância que ele tem”, diz Bárbara.
Nesta nova coleção, o tecido de chita é o protagonista. No entanto, as artesãs não se limitaram a apenas reproduzir as peças tradicionais; ao longo de oito meses, elas se dedicaram a experimentar cores, tramas e composições, incorporando elementos como bordados, sementes, couro e até retalhos plásticos, um verdadeiro testemunho de inovação e sustentabilidade na moda.
“Das Marias”: uma homenagem à ancestralidade
O nome da coleção, “Das Marias”, não foi escolhido por acaso. “Maria é um nome que carrega um significado profundo, muitas vezes utilizado de forma pejorativa quando se falava de mulheres, principalmente negras, sem saber seus nomes”, explica a artesã. Com isso, a coleção busca dar visibilidade e valor às histórias dessas mulheres, celebrando sua contribuição à cultura e ao cotidiano da região.
O papel do Laboratório de Inovação Artesanal
A viabilidade da coleção “Das Marias” foi possibilitada pelo Laboratório de Inovação Artesanal (LAB) da Rede Artesol. Esta organização não governamental tem mais de 25 anos de atuação no Brasil, fortalecendo o artesanato cultural. O LAB oferece capacitação, inclusão digital e acesso a mercados, enquanto valoriza o trabalho manual como um meio de desenvolvimento social, cultural e ambiental sustentável.
Helena Kussik, antropóloga e coordenadora do projeto Rede Artesol Artesanato do Brasil, destaca a importância de projetos como este: “É fundamental valorizar o saber-fazer das artesãs. Elas muitas vezes expressam a necessidade de inovar e apresentar suas criações de forma organizada ao mercado”. Em 2023, a Rede Artesol alcançou 25 estados e 539 municípios, capacitando 290 artesãos e resultando na criação de 38 novos produtos, o que fortaleceu a renda e a autonomia feminina.
Moda como meio de resistência cultural
A coleção “Das Marias” representa mais do que uma simples linha de roupas; é um ato de resistência e uma declaração de identidade. Ao trazer à tona a história do tecido de chita e dar um novo significado a ele, as artesãs não apenas valorizam suas tradições, mas também educam o público sobre a importância da preservação cultural e da sustentabilidade na moda.
As peças da coleção terão uma relação direta com a identidade de quem as cria e de quem as usa, podendo se tornar um símbolo de pertença e reconhecimento. Assim, o trabalho das artesãs da Chitarte vai além do visual; é um convite para refletirmos sobre nossas raízes e a história que cada tecido carrega consigo.
Com o lançamento programado para dezembro, a expectativa é alta tanto entre os admiradores da moda quanto entre aqueles que reconhecem a importância do artesanato como patrimônio cultural. A coleção “Das Marias” é uma ode à força das mulheres baianas e à riqueza da cultura brasileira, trazendo à tona histórias que merecem ser contadas e celebradas.








