Duas semanas após o fechamento de três asilos clandestinos gerenciados por Eva Maria de Lima, presa por suspeita de maus-tratos em Ribeirão Preto, SP, as investigações da Polícia Civil seguem avançando. O foco, neste momento, não é apenas consolidar as denúncias contra a responsável pelas casas de repouso, mas também identificar se outras pessoas, incluindo familiares, podem ser responsabilizadas por condições inadequadas e trauma enfrentado pelos idosos.
Natureza das investigações
De acordo com o delegado Haroldo Chaud, ainda é cedo para tirar conclusões, mas os depoimentos e documentos que estão sendo coletados podem levar a novos desdobramentos. Caso evidências provem que familiares estavam cientes das condições lamentáveis a que os idosos foram submetidos, eles também poderão ser investigados. Chaud expressou surpresa com a precariedade das clínicas, afirmando que, “quem vê as imagens vai perceber que aquilo era um depósito de idosos, sem a menor condição técnica ou higiene para abrigar qualquer ser humano”.
No dia 2 de novembro, a operação resultou no resgate de 36 pacientes nas unidades Meu Doce Lar, responsáveis por abrigar idosos em condições abaixo do ideal, com uma mensalidade de R$ 2,5 mil. Entre os resgatados, sete foram encaminhados a unidades de saúde e foram internados, uma ação que sugere a gravidade dos casos ali investigados.
Depoimentos dos familiares e o estado dos idosos
A Polícia Civil já ouviu familiares das vítimas e, segundo o delegado, muitos se mostraram consternados com a situação encontrada. Os relatos indicam que, antes da operação, as famílias não tinham acesso aos quartos e eram limitadas a visitar os idosos em locais determinados pela direção do asilo, necessitando, ainda, agendar visitas. Essa falta de transparência contribui para as suspeitas em torno dos cuidados oferecidos.
Uma sobrinha de um idoso resgatado relatou à EPTV, afiliada da TV Globo, que a situação do asilo era horrenda, com muita sujeira e sem qualquer condição de acolhimento. Contudo, a investigação enfrenta um desafio adicional: muitos idosos não conseguem ser ouvidos devido a limitações de saúde, como Alzheimer e outras comorbidades.
Busca por respostas e evidências
O que está em jogo, neste momento, é determinar se os idosos foram internados nos asilos de forma voluntária ou se houve coerção por parte de familiares. O delegado Chaud afirmou que essa questão pode gerar um novo inquérito, com foco em possíveis responsáveis pela internamento forçado.
Por enquanto, a Polícia Civil e a Secretaria Municipal de Saúde estão trabalhando em conjunto para possibilitar que, ao menos, alguns idosos que têm condições de fornecer depoimentos sejam ouvidos. “Estamos aguardando que a Secretaria de Saúde selecione, pelo menos por amostragem, aqueles idosos que possam falar, pois a saúde é a prioridade”, disse o delegado.
Implicações para os familiares
Embora ainda não haja evidências concretas de internação forçada, o delegado ressaltou que familiares poderão ser investigados, especialmente se ficarem evidentes indícios de que eles foram coagidos a deixar seus entes queridos naquele contexto. A complexidade é aumentada pelo fato de que o cadastro dos idosos nos asilos era feito de maneira precária, dificultando a localização de parentes.
A situação da responsável pelos asilos
A responsável pelos asilos, Eva Maria de Lima, que se encontra presa preventivamente, já foi chamada a depor, mas optou por permanecer em silêncio, um direito constitucional. Ela enfrenta acusações com base no artigo 99 do Estatuto do Idoso, que trata da prática de maus-tratos, que envolve expor a saúde e bem-estar do idoso a situações degradantes.
As investigações estão em andamento e as autoridades permanecem atentas para garantir que todos os responsáveis por estes abusos sejam punidos, além de garantir a segurança e o bem-estar dos idosos que conseguiram ser resgatados de situações tão angustiantes.
Por fim, a Polícia Civil reitera que está empenhada em esclarecer todos os aspectos envolvidos nesta investigação, que não só revela a gravidade dos maus-tratos em asilos clandestinos, mas também busca proteger a fragilidade dos idosos, que merecem respeito e dignidade em qualquer lugar que sejam acolhidos.

